Crise na saúde indígena no Acre
Moradores da Aldeia Boa Floresta, pertencente ao povo Jaminawa e situada na terra indígena Cabeceira do Rio Acre, em Assis Brasil, denunciam a grave precariedade no acesso à saúde. Com mais de 370 indígenas vivendo na região, a falta de atendimento médico tem resultado em graves consequências, incluindo mortes que poderiam ser evitadas.
Segundo o cacique Santos Raimundo Batista Jaminawa, o desafio para receber cuidados médicos é imenso, pois é necessário viajar até cinco horas de barco para alcançar o atendimento na cidade de Assis Brasil. Essa situação se agrava pela ausência de equipes de saúde em locais mais próximos às aldeias. O G1 tentou contato com o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), mas não obteve retorno até a tarde desta segunda-feira (27) sobre a situação.
“O estado não oferece nada. Nem remédios, nem atendimento. Quando a equipe vem, é uma ocorrência rara e, se alguém adoecer, já começamos a nos preparar para o pior”, desabafou o cacique.
O deslocamento para o município é feito em embarcações próprias, e a situação se torna ainda mais complicada durante o período de estiagem, quando o nível dos rios diminui e torna a navegação difícil.
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Dificuldades e Consequências
As denúncias não param por aí. “Quando alguém tem um problema de saúde à noite, não temos opções. Já houve casos de pessoas que morreram por não conseguirem chegar a tempo ao atendimento. Estamos desesperados e sem saber como nossos apelos podem ser ouvidos”, afirmou o cacique.
As visitas das equipes de saúde indígena são esporádicas, com frequência apenas quando a comunidade pressiona por atendimento. A ausência de médicos fixos nas aldeias eleva o risco de doenças, infecções e fatalidades. “Falam que têm médicos e equipes, mas aqui a realidade é diferente. No papel, tudo parece certo, mas na prática não existe nada. Vamos lutar pelos nossos direitos e não permitiremos mais que continuem nos matando”, enfatizou.
Além da falta de atendimento, o cacique aponta a escassez de medicamentos básicos nas aldeias. “Não deixam nada para os indígenas. Aqui, a gente vive na benção de Deus”, destacou.
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Casos Alarmantes de Falta de Atendimento
O cenário se torna ainda mais alarmante quando o cacique menciona os casos de mortes ocorridas no último ano, totalizando pelo menos quatro óbitos devido à falta de assistência médica apropriada. Desde o início de 2026, novas mortes já foram registradas, afetando crianças e idosos.
Um caso pessoal e impactante envolveu a filha do cacique, que teve complicações graves durante a gravidez. Ela precisou ser transportada às pressas de madrugada para Assis Brasil, já em estado crítico. No entanto, ao chegar à unidade de saúde, enfrentou atrasos no atendimento e falta de suporte adequado para a emergência. Posteriormente, foi transferida para a capital, Rio Branco, onde sua condição exigiu cirurgia de urgência.
“Ela quase morreu. Foi uma experiência muito difícil. Se houvesse atendimento na aldeia, poderíamos ter evitado tudo isso. Quase perdi minha filha”, lamentou o cacique.
Busca por Apoio e Visibilidade
Frente a essa realidade angustiante, as lideranças indígenas pretendem buscar apoio da imprensa e de órgãos públicos para tornar visível a situação enfrentada nas comunidades. “Fomos a Brasília e nos disseram que tudo estava certo. Mas essa é uma visão distorcida. Nossa realidade é bem diferente e dolorosa para quem vive aqui”, concluiu.
Essa crise na saúde indígena no Acre evidencia a urgência de uma resposta adequada das autoridades e a necessidade de políticas públicas que garantam o direito à saúde das populações que habitam as terras indígenas.
