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    Home»Política»Estradas Ilegais na Amazônia: Como o Poder Público Acelera o Desmatamento
    Estradas Ilegais na Amazônia: Como o Poder Público Acelera o Desmatamento
    Política 20/04/2026

    Estradas Ilegais na Amazônia: Como o Poder Público Acelera o Desmatamento

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    O Crescimento das Estradas Fantasmas

    A degradação da floresta amazônica começa com o desmatamento ilegal, geralmente em áreas próximas a rios, visando a exploração de madeira, garimpo ou pecuária. O processo se inicia com a abertura de trilhas, conhecidas na região como varadouros, permitindo o tráfego de pessoas e mercadorias.

    Com a intensificação da exploração desses locais, surgem moradias nas cercanias, e algumas trilhas são ampliadas para acomodar motos, carros e caminhões. Essa nova via acaba se conectando a uma estrada maior, atraindo a intervenção do poder público. Com emendas parlamentares, prefeituras e governos estaduais mobilizam máquinas pesadas para manter e expandir essas vias, frequentemente a serviço de interesses privados que se beneficiam do comércio ilegal. Tais serviços são realizados sem licenciamento ambiental e sem a implementação de obras de drenagem, resultando no bloqueio de riachos e córregos locais.

    Uma vez consolidada, a estrada propicia um ciclo interminável de desmatamento ao longo de seu trajeto. Segundo a professora e pesquisadora da Universidade Federal do Acre (UFAC), Sonaira Souza Silva, essas vias, denominadas “estradas fantasmas” ou “estradas vírus”, frequentemente não se conectam a rotas principais, portanto, escapam da fiscalização de autoridades e ambientalistas, mas vão avançando, devorando a floresta.

    Estudo Revela a Realidade das Estradas na Amazônia

    Um estudo coordenado por Silva, acessado com exclusividade pela Folha, analisou o crescimento de estradas no Acre desde 1990, destacando o aumento alarmante das chamadas “estradas fantasmas”. Embora a pesquisa não tenha quantificado precisamente essas vias, a especialista estima que elas representem ao menos 30% dos novos trechos abertos no período.

    “Não esperávamos um surgimento tão significativo de novas estradas. Quando falamos em estradas, geralmente pensamos nas rodovias asfaltadas ou nas BRs. No entanto, ao examinarmos o avanço dessas estradas menores, foi realmente surpreendente”, comentou Silva.

    A pesquisa, intitulada “Expansão de Estradas e Ramais no Estado do Acre: 1989 a 2025”, revelou que o maior crescimento de trechos ocorreu em 2019 e 2020, durante a presidência de Jair Bolsonaro, com mais de 1.400 km de novas vias abertas em cada um desses anos. Já em 2025, sob a administração de Luiz Inácio Lula da Silva, o Acre registrou a abertura de 1.165 km de estradas, ocupando o quarto lugar na série histórica do estudo.

    Preocupações Ambientais e Desmatamento

    Entre 1990 e 2025, a média de novas estradas abertas no Acre foi de aproximadamente 540 km anualmente. Desses novos trechos, cerca de 35% foram em projetos de assentamento, enquanto 28% ocorreram em propriedades privadas e 92 km em terras indígenas.

    Um dado alarmante é a expansão de estradas dentro de unidades de conservação, que totalizou quase 3.000 km desde 1990. O estudo revelou que a construção de estradas em áreas protegidas aumentou consideravelmente sob o governo Bolsonaro, com mais da metade (52%) das vias construídas nos últimos seis anos.

    Por exemplo, em 2022, foram identificados 186 km de novos ramais na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e 67 km na Resex Cazumbá-Iracema. Essas estradas estão frequentemente localizadas em áreas isoladas, representando novas frentes para desmatamento.

    Casos Práticos e a Necessidade de Fiscalização

    Um ramal de destaque no estudo é o Barbary, que conecta os municípios de Cruzeiro do Sul e Porto Walter. Conforme revelado pela Folha, a construção dessa via acarretou desmatamento ilegal e invasão de terras indígenas. O caso está sob investigação da Polícia Federal, após um pedido de entidades que lutam contra a corrupção.

    Segundo Silva, o ramal Barbary ilustra a abertura de estradas sem um planejamento adequado e sem as devidas avaliações de impacto ambiental. Outro estudo, conduzido pela pesquisadora Cecília Leal, da Universidade de Lancaster, investiga como a abertura de estradas tem afetado pequenos cursos d’água, os igarapés. Leal alerta que as estradas na Amazônia têm causado impactos cumulativos gravíssimos em dezenas de milhares de leitos de água ao longo das últimas décadas.

    Reações e Opiniões sobre a Situação

    O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela fiscalização das unidades de conservação, atribui o aumento das estradas nas reservas à mudança nas atividades econômicas, especialmente a consolidação da pecuária. O ICMBio ressalta que a melhoria das vias busca atender às necessidades das comunidades locais, embora reconheça que algumas aberturas possam ter ocorrido sem licenciamento ambiental.

    O Governo do Acre, por sua vez, defendia que a abertura de estradas se relaciona com a necessidade histórica de integrar a região e facilitar o acesso a serviços públicos e à produção rural, especialmente em áreas de difícil acesso.

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