O Impacto da Expansão de Estradas Ilegais
Um estudo recente da Universidade Federal do Acre (UFAC) revelou o alarmante crescimento de estradas ilegais no estado, destacando o ramal Barbary como um dos casos mais emblemáticos. Desde 1990, vias abertas sem o devido licenciamento ambiental têm avançado sobre unidades de conservação, terras indígenas e áreas protegidas. Realizado pela professora Sonaira Souza Silva, o levantamento intitulado “Expansão de Estradas e Ramais no Estado do Acre: 1989 a 2025” identificou o surgimento de múltiplas vias, denominadas “estradas fantasmas” ou “estradas vírus”, que escapam à fiscalização devido à falta de conexão com rodovias principais.
O padrão de abertura dessas vias se inicia com o desmatamento ilegal, com foco em áreas próximas a cursos d’água, visando extração de madeira, garimpo e pecuária. Após essa fase inicial, trilhas, conhecidas como varadouros, são criadas para facilitar o trânsito de pessoas e mercadorias. Com o tempo, e o aumento da atividade econômica na região, essas trilhas são expandidas para suportar o tráfego de veículos maiores, sendo eventualmente interligadas a vias mais amplas. A partir desse momento, prefeituras e governos estaduais frequentemente assumem a responsabilidade pela manutenção e ampliação dessas estradas, utilizando recursos públicos sem a realização de licenciamento ambiental ou obras de drenagem, causando bloqueios em riachos locais. O resultado? Um ciclo contínuo de desmatamento ao longo das vias construídas.
A coordenadora do estudo, Sonaira Silva, expressou sua surpresa com o número de novas estradas descobertas. “Quando se fala em estradas, geralmente pensamos nas rodovias asfaltadas, nas BRs ou estradas estaduais. No entanto, ao analisarmos as chamadas estradas menores, como os ramais, o que encontramos foi realmente surpreendente”, pontuou.
Crescimento Acelerado e Suas Consequências
Os anos de 2019 e 2020 foram marcados por um aumento significativo na abertura de novas vias, coincidindo com a administração do ex-presidente Jair Bolsonaro, com mais de 1.400 km de estradas abertas a cada ano. Já em 2025, sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o Acre registrou 1.165 km de novas vias, ocupando o quarto lugar na série histórica. De 1990 até 2025, a média anual de novos trechos foi de 540 km, sendo que cerca de 30% dessas estradas são classificadas como “fantasmas”. Municípios como Sena Madureira, Feijó e Rio Branco destacam-se pela alta concentração dessas vias.
O estudo também revela que aproximadamente 35% das estradas foram abertas em projetos de assentamento, 28% em propriedades privadas e menos de 1%, cerca de 92 km, em territórios indígenas. Um dado que chama a atenção é a expansão das estradas em unidades de conservação, onde quase 3 mil km foram construídos desde 1990, com mais da metade desse total surgindo nos últimos seis anos, especialmente em 2019, 2020 e 2025. Em 2025, foram identificados 186 km de novos ramais na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e 67 km na Resex Cazumbá-Iracema, considerados “novas frentes de ocupação e desmatamento” em áreas remotas.
Casos Notáveis e Desafios Legais
Um dos casos mais notórios mapeados é o ramal Barbary, que conecta Cruzeiro do Sul a Porto Walter. Iniciado em 2015, sob a gestão do então prefeito Zezinho Barbary, atualmente deputado federal, o projeto gerou desmatamento ilegal e invasões em terras indígenas, utilizando maquinário financiado por emendas parlamentares. Em novembro de 2022, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, ordenou uma investigação pela Polícia Federal, após solicitações de entidades de combate à corrupção. Para Sonaira, o ramal Barbary representa um exemplo claro da falta de planejamento e a ausência de estudos de impacto ambiental e social associados à abertura de novas estradas.
Outra pesquisa, coordenada pela pesquisadora Cecília Leal, da Rede Amazônia Sustentável, analisa as consequências dessas estradas sobre os igarapés, pequenos cursos d’água típicos da Amazônia. A pesquisa, já em fase final, sugere que a construção de estradas na Amazônia Legal tem comprometido vários leitos d’água nas últimas décadas. “A ideia de que uma pequena estrada sobre um igarapé não causa danos é enganosa. Na verdade, são centenas delas espalhadas por toda a região, e os impactos se acumulam ao longo das bacias hidrográficas”, explica Leal.
Posicionamentos de Órgãos e Do Governo do Acre
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) destacou que o crescimento das estradas em reservas como Chico Mendes e Cazumbá-Iracema se deve a mudanças econômicas nas comunidades locais e ao avanço da pecuária, afirmando que as ampliações foram realizadas com autorização do instituto. Em relação à Resex Chico Mendes, o ICMBio informou que a unidade, que abrange quase 1 milhão de hectares, suporta mais de 4.000 famílias e que em 2025 foi realizada a Operação Suçuarana, considerada a maior intervenção para a retirada de gado ilegal da história da unidade.
Por sua vez, o Governo do Acre afirmou que a abertura de vias é essencial para a integração regional, oferecendo acesso a serviços públicos e facilitando o escoamento da produção rural, especialmente em áreas de difícil acesso. A nota ainda ressalta que aberturas irregulares sem licenciamento são objeto de investigação pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).
