Análise sobre a luta política em torno da BR-364
A BR-364, que conecta Cruzeiro do Sul a Rio Branco, é um símbolo do desejo de integração do povo acreano. A estrada representa a aspiração de unir diversas regiões, como Juruá, Envira e Purus ao Vale do Acre, estendendo-se até Assis Brasil por meio da rodovia 317. Para muitos, a implementação dessa via é vista como um passo crucial para o desenvolvimento e a superação do isolamento.
De acordo com relatos históricos, a importância da BR-364 vai além da infraestrutura econômica. O renomado pensador Euclides da Cunha já havia vislumbrado sua relevância ao sugerir que a estrada fosse construída como uma ferrovia. Sua realização não apenas facilitaria o acesso a serviços públicos essenciais, como saúde e transporte, mas também representaria a liberdade de locomoção para as comunidades afetadas.
Diante disso, a construção e a manutenção da BR-364 tornaram-se temas centrais nos debates políticos locais. O político que mais se destacou nesse cenário foi Orleir Cameli, que compreendeu que, sem os investimentos de Brasília, seria inviável fazer com que o asfalto chegasse até Cruzeiro do Sul. Porém, durante os oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a estrada não recebeu qualquer recurso federal, refletindo a ideologia neoliberal da época, que priorizava cortes nos gastos públicos. Apesar da escassez de investimentos, Cameli conseguiu realizar algumas obras, mas apenas em trechos limitados.
A controvérsia em torno da construção da BR-364 ganhou novos contornos com a eleição da senadora Marina Silva, em 1994. Ela foi acusada de barrar a obra após o IBAMA embargar os trabalhos das empreiteiras em 1996, exigindo a apresentação de estudos de impacto ambiental. Naquele período, Marina era uma crítica ao governo FHC e não tinha controle sobre o órgão ambiental, liderado por Raul Jungmann. Curiosamente, fontes da época sugerem que a provocação ao IBAMA partiu do senador Flaviano Melo, do PMDB, que apoiava o governo federal. Apesar disso, Marina Silva ainda hoje é vista no Juruá como a responsável pela paralisação da obra.
A disputa entre Cameli e Melo marcou o início de uma série de embates políticos sobre a estrada. A astúcia política de Melo se sobrepôs à inexperiência de Marina, resultando em um desfecho que favoreceu sua narrativa. Após esse embate, as obras da BR-364 avançaram durante os governos de Jorge Viana, com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, e especialmente sob a gestão de Binho Marques, que contou com os recursos do PAC 1 no governo de Lula. Contudo, a construção enfrentou desafios técnicos significativos, com o solo e a intensidade das chuvas tornando os custos de manutenção extremamente altos. Isso evidencia que apenas administradores sensíveis ao papel social do governo são capazes de investir de forma eficaz.
Atualmente, a discussão gira em torno da manutenção da BR-364, onde se observa um embate entre interesses políticos e as necessidades reais da população. Durante o governo de Michel Temer e os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, a estrada não recebeu verba federal para sua conservação, resultando em sua degradação a um ponto quase intransitável. Ao longo desses seis anos de chuvas intensas e buracos, a bancada federal ficou em silêncio, favorecendo os interesses de Brasília a custo da população local.
Recentemente, parlamentares alinhados ao governo Bolsonaro começaram a criticar a negligência com a BR-364, mesmo sabendo que os recursos para a recuperação estão finalmente disponíveis. Essa estratégia evidencia uma tentativa de capitalizar politicamente em cima da situação, aproveitando-se da memória efêmera do eleitor. A lógica é simples: independentemente do avanço das obras, eles poderão alegar que contribuíram para a solução do problema.
Essa dinâmica perpetua uma política que prioriza vantagens pessoais em detrimento da resolução eficaz das questões enfrentadas pela população. Fica a pergunta: os eleitores cairão na armadilha mais uma vez? O foco agora deve ser o futuro. Na próxima eleição presidencial, é fundamental considerar quem realmente demonstrará compromisso em investir na infraestrutura da BR-364: Lula ou o candidato bolsonarista? Essa escolha, sem dúvida, impactará o destino da estrada e das comunidades que dependem dela.
