Uma Trajetória Inspiradora
Nascido e criado na capital acreana, Clécio Ferreira Nunes, de 24 anos, cresceu no bairro Montanhês, onde passou por toda a sua formação no ensino básico em instituições públicas. Após concluir o ensino médio, ele se dedicou ao curso de Letras Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac) e atualmente está envolvido em um mestrado, além de estudar Jornalismo. Neste domingo (19), em comemoração ao Dia dos Povos Indígenas, o g1 destaca a jornada de Clécio, que foi aprovado para uma vaga de professor no Instituto Federal do Acre (Ifac) em Cruzeiro do Sul, uma conquista que se concretizou em fevereiro deste ano, quando seu nome foi publicado no Diário Oficial da União (DOU).
“Quando vi meu nome na lista de classificados, fiquei sem acreditar. Queria gritar, mas era de madrugada e não podia”, recorda Clécio.
Superando Desafios
Clécio decidiu se inscrever no concurso do Ifac enquanto finalizava sua graduação e se preparava para iniciar o mestrado em 2023. Ele se motivou a participar após perceber a divulgação do edital nas redes sociais, que mostrava várias oportunidades na sua área.
“Eu vi que estavam disponíveis quatro vagas para Letras/Inglês. Pensei que quatro era bastante e que só precisava de uma. Isso me motivou a tentar”, relembrou.
No entanto, as etapas do concurso apresentaram desafios. A demora no andamento do processo chegou a desanimá-lo, já que o concurso ficou suspenso por meses devido a questionamentos judiciais, criando insegurança entre os candidatos.
Clécio revelou que, durante esse período, pensou em desistir da prova didática, mas sua motivação retornou ao perceber que candidatos de outros estados estavam se deslocando até o Acre para competir pelas vagas, enfrentando altos custos e longas viagens.
“Eu vi pessoas vindo do Maranhão, buscando indicação de hotéis. Isso me fez pensar: eu já estou aqui, não vou gastar com passagens e hospedagem. Essa perspectiva me animou”, completou.
A Aprovação e a Importância da Representatividade
Embora inicialmente Clécio não tenha sido classificado nas vagas imediatas – ocupando o quinto lugar na ampla concorrência – a aplicação das cotas o posicionou na sexta colocação geral. As convocações ocorreram ao longo de 2025, geralmente uma por vez, e a ansiedade aumentou com a possibilidade de novas vagas, inclusive em Feijó. Finalmente, a tão esperada convocação chegou na madrugada do dia 27 de fevereiro deste ano, quando o Ifac chamou três candidatos da área de Letras Inglês, incluindo Clécio.
“Quando eu vi meu nome na lista, foi uma felicidade indescritível. Era 2h da manhã e eu estava pulando de alegria. A primeira pessoa que avisei foi minha mãe. Eu acompanhava tudo e sabia que uma hora chegaria a minha vez. Não desisti, mesmo sabendo que havia pessoas mais experientes competindo”, relatou.
Cultura e Educação
Embora Clécio não tenha vivido em uma aldeia durante a infância, seu contato com a cultura Huni Kuĩ era constante em casa, através de parentes que visitavam, usavam pinturas e adereços, além de se comunicarem na língua nativa. Sua primeira visita a uma terra indígena aconteceu já na juventude, por volta dos 20 anos, quando conheceu a aldeia da família paterna em Feijó.
Na escola, ele recorda um tempo de timidez e estranhamento. “Eu era muito introvertido e tinha uma curiosidade dos outros colegas por conta dos meus olhos puxados. Muitas vezes me confundiam com asiático, como se fosse chinês ou japonês”, compartilhou.
Facilidade com Idiomas e Projetos Futuros
Desde cedo, Clécio demonstrou facilidade para aprender idiomas, começando pelo espanhol na adolescência e, posteriormente, estudando inglês em um curso em Rio Branco, apesar das dificuldades de deslocamento. Sem condições financeiras para pagar um cursinho, ele se preparou para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) com o apoio da escola pública e aulas gratuitas, enfrentando uma rotina cansativa.
Ao ingressar em Letras Inglês na Ufac, a intensidade da vida acadêmica aumentou. Apesar de receber bolsas acadêmicas que ajudaram na sua renda familiar, Clécio enfrentava longas jornadas, pegando ônibus por volta das 10h para chegar à universidade às 13h, muitas vezes voltando apenas à noite.
Clécio acredita que a forma como os professores ensinavam, priorizando a participação dos alunos em vez de se restringirem à gramática, influenciou diretamente sua escolha profissional. “Eu queria ensinar para que outros também tivessem essa oportunidade. Não era bom ficar aprendendo inglês sozinho, sem ter com quem conversar”, enfatizou.
Um Novo Capítulo
Clécio Ferreira Nunes destaca que nunca teve um professor indígena durante toda a sua trajetória escolar e acadêmica, desde a creche até o mestrado. Para ele, ocupar essa posição de docente representa um significado coletivo importante.
“Nunca tive essa referência. Hoje, ao conquistar essa vaga, espero ser essa referência para alguém que precisa. Se não há ninguém nesse espaço, não significa que não é para você. Vá lá e seja essa pessoa. Não desista”, encorajou.
Além da docência, Clécio planeja continuar sua carreira acadêmica, com aspirações de doutorado e pesquisas sobre literatura indígena. Ele também pretende desenvolver projetos de ensino de inglês voltados às comunidades indígenas, com foco no turismo nas aldeias. “Sonhe em estar lá e nunca esqueça de onde veio. Tudo o que você aprender na jornada acadêmica precisa voltar para o seu povo”, finalizou.
