Estudo Inovador sobre Cobertura Jornalística LGBTI+
O jornalista e pesquisador acreano Antônio Guilherme de Lima, natural de Rio Branco e doutorando em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), conquistou destaque nesta semana após a publicação de sua pesquisa pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O estudo analisa como a mídia brasileira aborda a pauta LGBTI+ e reproduz estereótipos na cobertura jornalística.
A pesquisa, que surgiu a partir de sua trajetória acadêmica iniciada na Universidade Federal do Acre (Ufac), investiga os processos de seleção e filtragem de notícias em webjornais. O trabalho já teve repercussão significativa, sendo utilizado pelo Ministério Público Federal no Acre (MPF/AC) em discussões sobre ética na comunicação.
Formado em Jornalismo pela Ufac em 2023, Antônio revelou em entrevista ao ac24horas que sua vivência profissional no Acre influenciou a escolha do tema. Ele começou sua carreira como estagiário e, logo após, atuou como jornalista durante a pandemia de Covid-19, período que impactou diretamente sua experiência. “Fui designado para cobrir as pautas mais polêmicas, normalmente ligadas à comunidade LGBTI+. Percebi que, por ser um jornalista gay, meus colegas se sentiam mais confortáveis em abordar esses temas comigo, mas também notei que o preconceito estava presente não apenas entre os jornalistas, mas na forma como a pauta era tratada”, relatou.
Trajetória Acadêmica e Motivação
O interesse de Antônio por esses temas começou na graduação, onde desenvolveu pesquisas sobre a reprodução de estereótipos no jornalismo. “Na Ufac, escrevi um artigo científico sobre como o telejornalismo policial tratava a comunidade LGBTI+. Essa pesquisa foi um marco inicial nas minhas investigações sobre diversidade sexual e de gênero no jornalismo brasileiro. Minha professora, Juliana Lôfego, foi uma grande incentivadora, e graças a ela consegui defender a primeira monografia sobre LGBTI+ e imprensa acreana em 2022, com nota máxima”, contou.
Após a graduação, ele deu continuidade aos estudos no mestrado e agora no doutorado. “Em 2023, fui aceito no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás (PPGCOM-UFG). Durante o mestrado, realizei um levantamento documental de webjornais da Região Norte, buscando compreender como os estigmas sobre a comunidade LGBTI+ eram reproduzidos. Atualmente, no doutorado, investigo como essa pauta é tratada por cargos de chefia nas redações brasileiras”, explicou.
Análise Crítica da Cobertura
A monografia de Antônio analisou a cobertura de um caso de homicídio de uma travesti em Rio Branco, evidenciando falhas na forma como a imprensa regional abordou o assunto. “O preconceito na mídia se manifesta de maneira sutil. Muitas vezes, a cobertura não reflete a realidade e pode até culpabilizar a vítima. As coberturas dos webjornais acreanos variaram amplamente, algumas chegando a responsabilizar a Fernanda pela própria morte, o que me impactou profundamente”, afirmou.
Segundo ele, os estereótipos são frequentemente reproduzidos de maneira discreta nas publicações. “É surpreendente como esses elementos discriminatórios aparecem sem que muitos percebam. Jornalistas podem reproduzir estereótipos pejorativos sem se dar conta, pois ainda existe uma certa normalização da LGBTIfobia no nosso país”, avaliou.
Repercussão e Impacto da Pesquisa
O trabalho de Guilherme teve grande repercussão, sendo utilizado por instituições como a Procuradoria da República no Acre e o Ministério Público Federal para promover discussões sobre ética jornalística. “Foi uma surpresa ver minha pesquisa sendo aplicada em contextos práticos. Saber que meu estudo pode contribuir para mudanças na sociedade e na profissão me fez perceber o potencial transformador da ciência”, disse.
Ele também lembrou que, em sua experiência como repórter, frequentemente foi chamado para cobrir pautas LGBTI+ por ser um homem gay. “Isso pode gerar uma expectativa de que eu teria uma visão mais sensível sobre o assunto, mas é importante ressaltar que isso não se aplica a todos os profissionais da área. Muitos jornalistas ainda se sentem desconfortáveis ao abordar esses temas”, refletiu.
Desafios na Imprensa e Caminhos para o Futuro
Entre os principais erros que a imprensa comete, Antônio destacou a reprodução de informações sem checagem adequada. “Um dos maiores problemas é a falta de cuidado com a identidade de pessoas trans e travestis na cobertura. Durante minha pesquisa de mestrado, muitos jornalistas reconheceram que reproduzirem discursos transfóbicos por conta de informações superficiais passadas pela polícia é bastante comum”, apontou.
O pesquisador defendeu a necessidade de capacitação e maior atenção ética na cobertura jornalística. “É fundamental que jornalistas sejam treinados para abordar temas de diversidade sexual e de gênero com responsabilidade. A discriminação, que antes era explícita, hoje é mais sutil, e por isso é necessário um olhar crítico para essas questões”, concluiu.
