documentário Destaca a Realidade dos Produtores de borracha
No coração da Amazônia, Sebastião Pereira e Sébastien Kopp representam mundos distintos, mas unidos por uma missão comum: dignificar as famílias que produzem insumos essenciais para a indústria do tênis. Sebastião, gerente da cadeia produtiva da borracha na Reserva Dois Irmãos, no Acre, e Sébastien, cofundador da marca Veja, compartilham não apenas nomes significativos, mas também um compromisso com a justiça social.
Para realçar essa narrativa, a Veja lançou o documentário “Longe dos Holofotes”, com 30 minutos de duração, sob a direção de Jérémie Battaglia e a produção do coletivo francês La Blogothèque. Ao invés de focar no produto final, o filme lança luz sobre as vidas daqueles que estão por trás da marca, revelando as histórias das pessoas que sustentam a produção antes mesmo que o tênis chegue às prateleiras.
Uma Cadeia Produtiva Sustentável
Segundo Sebastião, a exploração da borracha nativa representa uma alternativa que beneficia tanto o meio ambiente quanto as comunidades locais. A prática não apenas preserva a floresta amazônica, mas também melhora as condições de vida das pessoas que dela dependem. De acordo com dados da própria Veja, a marca colabora com mais de 2.500 famílias de seringueiros, comprando mais de 4.000 toneladas de borracha amazônica entre 2004 e 2024. A empresa paga um preço acima do mercado, além de oferecer bônus relacionados à qualidade e ao desenvolvimento social e ambiental. Um exemplo impactante citado por Sebastião foi de uma família no município de Jordão, que conseguiu erguer uma nova casa com a renda proveniente da venda da borracha.
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Aproximando-se da Realidade dos Produtores
Sébastien Kopp enfatiza que o objetivo de “Longe dos Holofotes” não era criar um material promocional, mas sim mostrar o cotidiano de pessoas que muitas vezes são negligenciadas. O enfoque do documentário é uma tentativa de dar voz a esses indivíduos, evitando a comunicação corporativa excessivamente polida e distorcida. “Não queríamos transformar isso em um filme de produto, onde o tênis fosse o foco. Não, queremos mostrar a vida real”, afirma Kopp.
A marca preferiu esperar duas décadas antes de documentar essa história para não cair em abordagens desrespeitosas ou coloniais. Kopp acredita que, com os resultados concretos alcançados — como a aquisição de grandes volumes de matéria-prima e a formação de uma equipe robusta de quase 700 pessoas —, houve um momento propício para compartilhar essa experiência. O tempo esperado para a realização do projeto demonstra que a Veja busca um compromisso verdadeiro, contrário à pressa comum de empresas nas quais o crescimento é frequentemente avaliado trimestre a trimestre.
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Liberdade e Autenticidade na Criação de Marca
Outro aspecto importante abordado no documentário é a liberdade criativa que Kopp e seu sócio, François-Ghislain Morillion, desfrutam ao gerenciar a marca. Eles não estão sob pressão de investidores e podem, assim, construir uma identidade própria, no seu próprio tempo. Essa liberdade, segundo Kopp, é crucial para evitar uma perspectiva eurocêntrica sobre a cadeia produtiva da borracha, garantindo que a empresa permaneça conectada à realidade das comunidades locais.
“Acredito que a Veja é uma das marcas mais brasileiras que conheço, pois nasceu de uma relação direta com o território, com a matéria-prima e com as pessoas, em vez de ser impulsionada apenas por lógica financeira ou estratégias de marketing”, destaca Kopp. O documentário, nesse sentido, funciona como um testemunho visual do ethos que a empresa já vinha defendendo ao longo dos anos. Portanto, “Longe dos Holofotes” se destaca mais como um retrato autêntico de um método do que como uma mera peça promocional.
