A Decisão de Construir o Próprio Túmulo
“Quando a pessoa morre, tudo vira despesa. Velório, caixão, sepultamento. Sendo assim, eu preferi deixar tudo já organizado para minha família.” Essa frase é de Paulo Onofre Lopes Craveiro, um professor de 60 anos que, diante das dificuldades impostas pela saúde, decidiu construir seu próprio túmulo em Tarauacá, no interior do Acre. Para ele, a medida é uma maneira de evitar que sua família enfrente transtornos e custos inesperados com a logística fúnebre.
Com a visão comprometida desde 2023 e em tratamento contínuo de hemodiálise há seis anos, Paulo optou por se precaver. Localizado no Cemitério São João Batista — o único da cidade —, o túmulo foi construído em apenas uma semana e teve um custo aproximado de R$ 6 mil, incluindo todos os materiais e mão de obra necessários.
A Escolha do Design do Túmulo
O projeto do túmulo, que conta com uma única gaveta, foi cuidadosamente idealizado por Paulo, que se atentou a cada detalhe. Ele escolheu um revestimento em porcelanato preto com detalhes dourados e uma cruz com asas de ferro, inspirada no Salmo 91 da Bíblia. “O preto representa o luto, e o dourado é voltado para a luz”, explicou. A decisão de construir o próprio espaço de descanso reflete a sua visão pragmática sobre a vida e a morte.
Paulo, natural de Tarauacá, sempre quis ser sepultado na cidade onde cresceu e onde estão enterrados seus familiares. No entanto, a falta de espaço no cemitério impediu a ampliação das gavetas existentes, o que o levou a tomar a atitude antecipada e decisiva.
A Situação da Saúde e a Independência
Em 2020, após perder a função renal, Paulo se mudou para Cruzeiro do Sul, onde existe uma das poucas clínicas de hemodiálise do interior do estado. Ele enfrenta complicações de diabetes que culminaram na perda total da visão entre 2022 e 2023. “Junto disso, faço o tratamento na Clínica de Doenças Renais do Vale do Juruá, através do Sistema Único de Saúde (SUS)”, contou.
Para seu filho, Luã Silva Craveiro, de 35 anos, enfermeiro e residente em Mato Grosso, a decisão de Paulo é um reflexo de seu perfil independente. “Meu pai sempre quis resolver tudo sozinho. Mesmo com as limitações, ele optou por fazer o túmulo para não sobrecarregar ninguém”, afirmou Luã, ressaltando que, apesar das dificuldades, a iniciativa é uma forma de manter a autonomia.
Reflexão sobre a Vida e a Morte
Paulo acredita que discutir a morte é essencial e não deve ser um tabu. Ele mantém uma rotina ativa, vivendo com sua mãe de 82 anos em um apartamento adaptado para suas necessidades. Além dos dias dedicados ao tratamento, ele frequenta balneários e consome uma variedade de conteúdos informativos, como podcasts. “A gente aprende até morrer. Essa vida é uma passagem. A morte é um mistério que todos enfrentarão, mas as pessoas evitam falar sobre isso”, enfatizou.
A Situação do Cemitério em Tarauacá
A superlotação no Cemitério São João Batista motivou a prefeitura de Tarauacá, em dezembro de 2022, a divulgar o início da construção de um novo cemitério, com serviços de terraplanagem já licitados. No entanto, até agora, não houve progresso significativo na entrega do local. A questão levou o Ministério Público do Acre a abrir um inquérito civil para investigar possíveis irregularidades ambientais relacionados à ampliação da estrutura do cemitério existente.
Na época, a prefeitura anunciou a aquisição de um terreno por R$ 400 mil, mas o MP apurou que nenhuma informação havia sido formalizada sobre a licença ambiental necessária para a construção. O então secretário de Meio Ambiente, Degilson Silva, afirmou que houve uma confusão nas declarações sobre o andamento das obras.
