O Papel da Militância nas Eleições de 2024
Ao revisitar os posts que redigi durante a corrida presidencial de 2022, recordo-me da acirrada disputa entre o então presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsonaro, com 70 anos, buscava a reeleição, enquanto Lula, aos 80 anos, tentava conquistar seu terceiro mandato. A frase que mais utilizava nas minhas análises naquele período foi: “as eleições serão decididas nos detalhes”.
No segundo turno, Lula obteve 50,9% dos votos válidos, enquanto Bolsonaro ficou com 49,1%, resultando em uma diferença de 2,13 milhões de votos. Um número que, como se dizia nas antigas redações, representa apenas um “punhadinho de votos”, visto que mais de 156 milhões de eleitores estavam aptos a votar naquela eleição.
Agora, à medida que se aproxima o novo pleito presidencial, a expressão “as eleições serão decididas nos detalhes” ressoa mais uma vez. Lula concorrerá à reeleição enfrentando Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, escolhido por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso por envolvimento em um golpe de estado.
Pesquisas de intenção de votos indicam que Flávio e Lula estão empatados. Se essa tendência se mantiver, o papel da militância política será crucial para persuadir um “punhado de eleitores” a apoiar seu candidato. Essa figura, o militante político, teve seu auge nas campanhas eleitorais da década de 80, mas começou a perder força com a ascensão da internet e a popularização de aplicativos e celulares.
O Legado dos Militantes Políticos
Minha primeira experiência com militantes políticos remonta ao início da minha carreira como repórter em 1979. Aqueles profissionais eram bem conhecidos nas comunidades, indo de porta em porta para convencer os eleitores a votar em seus candidatos. O ambiente eleitoral da época era substancialmente diferente do que conhecemos hoje. Para contextualizar, em 1964, as Forças Armadas, em conluio com a extrema direita e apoio dos Estados Unidos, tomaram o poder, destituindo João Goulart e instaurando um regime militar que aboliu o voto direto em muitas esferas governamentais.
A redemocratização no Brasil, consolidada em 1989 com a nova Constituição, também deve muito ao trabalho incansável da militância política. Esse esforço foi essencial para ajudar jornalistas e repórteres de minha geração a compreender a turbulenta fase de transformações políticas da década de 80. O Brasil, com suas vastas dimensões, exigia que nós, repórteres, estivéssemos sempre em movimento, cobrindo desde conflitos agrários até questões relacionadas ao crime organizado, especialmente em áreas de fronteira.
Antes de visitar os candidatos em suas bases, eu frequentemente buscava conversar com os militantes para entender a dinâmica eleitoral de cada localidade. Era uma época desafiadora, onde o tempo de apuração era limitado e enviar reportagens exigia grandes esforços, como viajar por estradas de terra em condições precárias apenas para encontrar um telefone.
A Relevância da Tecnologia na Militância Atual
Hoje, as tecnologias de comunicação e a melhoria da infraestrutura facilitaram a vida do repórter, mesmo em regiões remotas. No entanto, essas inovações não substituíram a militância; elas apenas equiparam os militantes com novas ferramentas, como a internet, que podem intensificar suas atividades.
Recentemente, Lula e o PT investiram na candidatura de Edegar Pretto (PT-RS) ao governo do Rio Grande do Sul, escolhendo a ex-deputada Juliana Brizola (PDT-RS) como sua candidata a vice-governadora. Essa estratégia busca resgatar a memória dos eleitores sobre a importância da soberania nacional, um tema caro à história política do Estado, associado a figuras emblemáticas como Leonel Brizola, que no passado defendeu a legalidade da posse de João Goulart.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro investe em uma plataforma que o aproxima da administração de Donald Trump, tentando contestar legalmente decisões que prejudicaram seu pai. Ele acredita que seus militantes poderão transmitir sua versão da história aos eleitores.
Com o atual cenário, onde Lula e Flávio estão tecnicamente empatados, cada voto pode se tornar decisivo. O trabalho da militância, portanto, não é apenas relevante, mas essencial para determinar quem liderará o Brasil nos próximos anos. Seja qual for o resultado, a luta dos militantes será fundamental para moldar o futuro político do país.
