O Surgimento do Movimento Slow na Saúde
A ideia de “slow living” teve suas raízes na Itália, em 1986, quando um grupo de pessoas se manifestou contra a abertura de um McDonald’s na icônica Piazza di Spagna, em Roma. Essa resistência não era apenas contra o fast food, mas uma defesa da cultura alimentar tradicional do país, onde cada refeição é um ritual de convivência e valorização do tempo. Após a vitória no protesto, surgiu a filosofia do “slow food”, que enfatiza o preparo cuidadoso dos alimentos, longe da pressa.
O cardiologista italiano Alberto Dolara percebeu que a mesma urgência que dominava a alimentação estava presente na medicina, criando o que ele chamou de “fast medicine”. Nos prontos-socorros, por exemplo, os pacientes são rapidamente examinados – muitas vezes em apenas seis minutos – sem que se leve em consideração suas histórias pessoais ou contextos. O foco na agilidade resulta em prescrições de medicamentos e exames que, em muitos casos, são desnecessários.
“Na prática clínica, a pressa é quase sempre desnecessária. A adoção de uma abordagem de Slow Medicine permite que médicos e enfermeiros tenham tempo para compreender as questões pessoais e sociais que envolvem cada paciente. Isso ajuda a reduzir a ansiedade durante a espera por diagnósticos e tratamentos”, escreveu Dolara em um artigo publicado no Italian Heart Journal, onde introduziu o conceito.
O Crescimento da Medicina Sem Pressa no Brasil
No Brasil, o movimento ganhou destaque por meio de palestras e publicações de médicos italianos e norte-americanos, inspirando profissionais como o geriatra José Carlos Aquino de Campos Velho, o professor Dario Birolini, e o clínico geral Kazusei Akiyama, que fundaram o Slow Medicine Brasil, conhecido no país como Medicina Sem Pressa.
“Fui convidado a assistir a palestras e a ler livros sobre o tema. Acredito que o Brasil precisava abraçar essa ideia, tanto para os profissionais de saúde quanto para os pacientes”, afirma Campos Velho, que atualmente coordena o movimento no país.
Após uma década de existência, o site da Medicina Sem Pressa conta com cerca de 20 colaboradores que produzem conteúdos, realizam palestras e fomentam o debate sobre a importância de um cuidado mais humano na saúde. O movimento já atraiu mais de 14 mil seguidores nas redes sociais, onde predominam profissionais de saúde.
Princípios da Slow Medicine e o Futuro do Cuidado
De acordo com o médico internista André Islabão, um dos co-autores do livro “Slow Medicine – sem pressa para cuidar bem”, a proposta é promover uma medicina que seja sóbria, respeitosa e justa. A sobriedade se refere ao acesso equilibrado aos cuidados de saúde, evitando excessos como a prescrição de medicamentos desnecessários. A relação médico-paciente deve ser de parceria, não de paternalismo, priorizando o que o paciente realmente precisa.
“O princípio da autonomia é fundamental. É essencial que o paciente seja colocado no centro do cuidado, com decisões compartilhadas”, comenta a oncologista Ana Coradazzi, também co-autora do livro. “Muitas vezes, quando falamos sobre nossa profissão, dizemos que trabalhamos para o hospital, mas a verdade é que nossa missão é beneficiar o paciente”.
Os membros da Medicina Sem Pressa enfatizam a importância de dedicar tempo para ouvir e compreender os pacientes, refletindo sobre suas necessidades antes de tomar decisões. Em um contexto em que a tecnologia avança, Islabão destaca a importância do contato físico entre médicos e pacientes, ressaltando que, embora a telemedicina e outras inovações tecnológicas sejam valiosas, não devem substituir o toque humano no cuidado.
A Difusão do Movimento e Expectativas Futuras
Coradazzi observa um crescente interesse pelo Slow Medicine nos últimos anos, refletido na popularidade das redes sociais, na demanda por livros e palestras, além da formação de ligas acadêmicas em universidades. “Estamos vendo a ideia de Medicina Sem Pressa se espalhar pelo país e acredito que, nos próximos anos, ela continuará a crescer, com mais pessoas se engajando em um sistema de saúde mais crítico e consciente”, conclui.
Os dez princípios da Slow Medicine, que orientam esta nova abordagem na saúde, incluem a valorização do tempo, a escuta ativa do paciente, e a busca por um equilíbrio no cuidado, sempre priorizando o bem-estar do paciente em primeiro lugar.
