Uma História de Quase Oito Décadas
A Livraria Cultura, um dos ícones do mercado livreiro em São Paulo, encerrou suas atividades de maneira definitiva em 2023, marcando o fim de uma trajetória que se estendeu por quase oitenta anos. Recentemente, a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo confirmou a falência da empresa, resultando em um passivo atualizado que chega a R$ 288,3 milhões.
A crise financeira da Livraria Cultura começou a ganhar contornos mais sérios em 2018, quando a empresa protocolou um pedido de recuperação judicial. Desde então, enfrentou uma série de questionamentos de credores e tentativas de conversão do processo em falência. Em meados de 2025, a administradora judicial Laspro Consultores informou que a companhia havia encerrado suas atividades sem aviso prévio, após realizar diligências em endereços conhecidos, como na Rua Fernão Dias, em Pinheiros, e na Avenida Angélica, em Higienópolis.
A empresa alegou, na ocasião, que enfrentava dificuldades operacionais que foram agravadas por decisões judiciais anteriores que, em um primeiro momento, decretaram sua falência, mas que posteriormente foram suspensas por decisões liminares de instâncias superiores. No entanto, a reabertura das lojas não se concretizou e, segundo fontes ligadas ao processo, embora um recurso ainda esteja pendente, as atividades estão interrompidas há cerca de um mês.
Endividamento e Dificuldades Operacionais
O elevado montante da dívida é apontado como o principal fator que levou à situação drástica da Livraria Cultura. Estimativas indicam que aproximadamente R$ 70 milhões estão relacionados a dívidas extraconcursais, contraídas após o pedido de recuperação judicial, sendo cerca de R$ 30 milhões referentes a débitos de aluguel, de acordo com informações do Estadão/Broadcast.
A deterioração financeira da empresa não é uma novidade; pessoas que acompanharam sua trajetória destacam que a crise se intensificou a partir da saída do Conjunto Nacional, o que levou a varejista a realizar sucessivos fechamentos de unidades e a tentar reformular seu modelo de negócios sem sucesso. A Cultura, que começou sua história em 1947 como uma livraria familiar em São Paulo, rapidamente se consolidou como uma das principais redes do setor no Brasil. No entanto, a partir de 2010, a empresa começou a enfrentar uma queda nas receitas e um aumento nos custos operacionais, em um cenário marcado pela retração do mercado editorial e pelo avanço do comércio eletrônico.
Desafios da Era Digital
Apesar do cenário adverso, a Livraria Cultura manteve um plano de expansão, adquirindo, em 2017, a operação brasileira da Fnac. Ademais, possuía a Estante Virtual, um importante canal de comércio digital, que foi vendida ao Magazine Luiza em 2020. Contudo, a combinação da expansão com a retração do setor e a dificuldade em captar recursos pressionou o caixa da empresa de forma significativa.
Em outubro de 2018, a Livraria Cultura solicitou recuperação judicial, na época com dívidas de cerca de R$ 285 milhões. Durante o processo, foram apresentados aditivos ao plano que haviam sido aprovados pelos credores, mas a empresa enfrentou dificuldades em cumprir as obrigações estabelecidas, agravadas pelos impactos da pandemia de covid-19, que afetaram de maneira contundente as vendas nas lojas físicas.
O Fim de uma Era
Em fevereiro de 2023, a Justiça paulista decretou a falência da Livraria Cultura, alegando descumprimento do plano de recuperação e outras irregularidades. Embora a decisão tenha sido alvo de recursos e tenha chegado a ser suspensa temporariamente por uma liminar, a sequência de decisões judiciais desfavoráveis, aliada a restrições operacionais e ao agravamento financeiro, culminou no encerramento definitivo das atividades tanto físicas quanto digitais da rede.
O legado da Livraria Cultura, que encantou gerações com seus livros e cultura, agora se encontra em um triste capítulo, lembrando-nos das dificuldades que o mercado editorial enfrenta em tempos de transformação e desafios econômicos.
