Desafios da Precipitação e a Gestão Urbana
O inverno no Acre segue seu padrão, mas com nuances alarmantes. Historicamente, os meses de dezembro, janeiro e fevereiro são marcados por chuvas, porém a intensidade e a ausência delas no verão têm gerado preocupação. Em dezembro de 2025, por exemplo, o estado registrou impressionantes 561 milímetros de chuva, tornando o mês o mais chuvoso da história, quando a expectativa era de 268,4 mm. Esse fenômeno não pode ser atribuído a um erro de cálculo, mas sim a um quadro de desequilíbrio ambiental que torna as previsões cada vez mais difíceis.
As administrações públicas têm adotado uma postura cautelosa, preparando-se para o pior cenário possível, onde tudo que vier a ser menos severo é considerado um saldo positivo. Contudo, um dos principais obstáculos para a conscientização sobre as causas desse desequilíbrio é integrar a população ao processo de solução. Para muitos, a compreensão do impacto do uso de combustíveis fósseis na emissão de gases de efeito estufa e no aquecimento global, embora intuitiva, permanece teórica e distante.
Descompasso entre Teoria e Prática na Sociedade
Quando se trata de alterar hábitos diários, a percepção muda. O ativista que defende o conceito de “Desenvolvimento Sustentável” pode, paradoxalmente, se alegrar com novas descobertas de petróleo pela Petrobras, justificando essa incoerência com a transição energética. Essa dicotomia é um reflexo da complexidade do debate sobre meio ambiente e economia.
A realidade nas prefeituras também é complicada. Com orçamentos limitados e equipes reduzidas, muitos prefeitos enfrentam a crise com improviso. Um aspecto preocupante é que alguns desses gestores adotam uma postura negacionista em relação às mudanças climáticas, priorizando a defesa das atividades humanas em detrimento da preservação ambiental.
Abarcações Urbanas e Desafios de Arborização
No município de Rio Branco, por exemplo, os dados da Pesquisa Urbanística do IBGE revelam que a capital acreana ocupa a terceira posição entre as capitais mais mal arborizadas do Brasil, perdendo apenas para São Luís (MA) e Salvador (BA). Este cenário é preocupante, especialmente quando se considera que até o Tribunal de Contas do Estado, em sua tentativa de revitalização, derrubou árvores que traziam frescor e beleza à cidade.
Atualmente, não há sinais de que a arborização em Rio Branco irá melhorar. A previsão orçamentária associada a projetos urbanísticos carece de foco em soluções que priorizem o meio ambiente, como a criação de áreas verdes. A discussão sobre a adequação de espécies, como a sibipiruna, torna-se uma lembrança nostálgica, já que a falta de planejamento urbano adequado deixa a cidade vulnerável.
Consequências das Enchentes e a Falta de Planejamento
Sem árvores, sem um planejamento urbano compatível com a realidade amazônica e sem saneamento básico, as enchentes se tornam inevitáveis. A gestão pública, muitas vezes, se vê forçada a decretar “situação de emergência”, um instrumento que, embora necessário, não é sinônimo de efetividade nas ações. Cada declaração de emergência traz à tona a falta de preparação e a incapacidade de promover mudanças significativas.
Há um descompasso entre as esferas do governo. Embora o Governo do Acre se orgulhe de participar de discussões sobre o Programa de Resiliência Socioambiental, a ausência de uma proposta urbanística clara na maior cidade do estado reflete um descaso alarmante. Um grupo de gestores opera em um nível e outro não consegue assegurar às famílias do Papoco as condições mínimas de segurança e conforto, como escolas e transporte público de qualidade. Assim, a lógica da permanência no lugar se torna evidente: “Se nada é garantido, fico onde estou!”
Reflexões sobre Crescimento Econômico e Sustentabilidade
Os desequilíbrios climáticos enfrentados atualmente se caracterizam não apenas pela intensidade, mas também pela abrangência. As causas desse fenômeno, no entanto, pertencem a uma agenda antiga e uma percepção ultrapassada sobre crescimento econômico. Essas questões são reflexos de decisões em que os agentes públicos, embora tenham um papel crucial, não são os únicos responsáveis pela crise ambiental que vivemos.
