Entendendo a Identidade Cigana
— Não existe uma definição única de ser cigano; cada família possui suas tradições e costumes particulares — reflete o psicólogo e professor universitário Sharlys Jardim da Silva Santos, ao discutir a complexa identidade dessa etnia. Recentemente, um casamento em Farroupilha atraiu cerca de 1,5 mil convidados e gerou movimentação nas redes sociais, despertando a curiosidade sobre a vida das comunidades ciganas, tradicionalmente discretas.
Esse evento trouxe à tona questões sobre as modernas vivências ciganas, como a tendência de menos casamentos arranjados entre primos, uma prática que foi mais comum no passado. Além disso, a ideia de que todos os ciganos vivem em tendas e se deslocam constantemente entre cidades está se tornando menos prevalente.
Conforme observa Sharlys, a impermanência é uma característica essencial que define aqueles que possuem sangue das duas principais etnias – Rom e Calon. Ele explica: — Somos influenciados por diversas colonizações e mantemos, por exemplo, uma forte devoção a Nossa Senhora Aparecida. O que marca a identidade cigana é a prática de ofícios. Muitos são comerciantes e sentem a necessidade de se comunicar. Embora algumas famílias tenham residência fixa, eu mesmo me mudei bastante até encontrar estabilidade. Há algo intuitivo sobre quando devemos mudar — relata.
Construindo a Identidade Cigana
De origem Calon, uma etnia com raízes em Portugal e Espanha, Sharlys está desenvolvendo uma dissertação de mestrado que busca entender como se constrói a identidade cigana. Para isso, é fundamental considerar os costumes dos Rom, grupo ao qual pertence Vitor Caldeira (@bitor), um morador de Goiânia que nos últimos dois anos tem se empenhado em divulgar as tradições ciganas em sua conta do Instagram, que já conta com 245 mil seguidores, e 650 mil no TikTok.
— Ciganos têm um jeito único de se identificar, seja pela forma de falar ou até pelo modo de andar. Hoje, 99% dos meus seguidores são gadjés (não ciganos), e percebo a curiosidade deles. Quando surgem comentários negativos, me preocupo em acolher e desmistificar preconceitos. O espaço criado é raro, e no início enfrentei muitos desafios, até mesmo o risco de ser expulso, pois a comunidade é reservada. Contudo, a forma respeitosa com que tratei o assunto fez com que muitos vissem minha boa intenção de esclarecer a visão distorcida que as pessoas têm sobre os ciganos — compartilha.
Festas como Reflexo da Cultura
Vitor também enfatiza a importância de festas, como o recente casamento em Farroupilha, como uma chance de celebrar e compartilhar as tradições ciganas com o público externo. — A abundância apresentada em eventos como esses representa sorte e, ao exibi-la, mostramos que somos capazes de prosperar — afirma.
Em Caxias do Sul, no bairro São Pelegrino, o casal Márcio Allend e Adriana Silva mantém um Centro Cultural que se dedica à preservação das tradições ciganas, especialmente por meio da dança, que é uma expressão vital dessa cultura.
A dança e a gastronomia são elementos fundamentais, e a sobrevivência do povo cigano está ligada à formação de grupos. Historicamente, as famílias se reuniam para encontrar sustento e se deslocavam conforme as necessidades. Em suas jornadas, muitas vezes exerciam funções que outros não desejavam, como cobradores de impostos, marceneiros e carpinteiros. Elementos simbólicos, como a fogueira e a roda da carroça, ajudam a preservar essas identidades ancestrais.
No Brasil, desde 2006, o Dia do Cigano é celebrado em 24 de maio, homenageando a contribuição dessa comunidade para a formação da cultura brasileira.
