coragem e Medo: Uma Reflexão Sobre Valores na Sociedade Atual
“Precisamos de coragem neste projeto! Como em tudo na vida!” afirmou o vice-presidente de Marketing em uma reunião virtual. O entusiasmo foi palpável, com todos os presentes concordando veementemente, como se fossem líderes de uma revolução. Contudo, a reunião não tratava da luta contra um império opressor, mas sim do reposicionamento de um xampu anticaspa no mercado. Assim, enquanto acenava afirmativamente, uma dúvida me invadia: será que realmente é preciso tanta coragem?
A coragem é, talvez, uma das virtudes mais supervalorizadas, e essa ideia é antiga. Em um dos primeiros best-sellers sobre autoajuda, “O Príncipe”, Maquiavel aconselhava os governantes a escolherem a coragem em detrimento da cautela, pois, segundo ele, a deusa Fortuna se inclina mais aos que ousam. Claro, não sou ninguém para criticar Maquiavel, mas ao revisar suas lições, falta ao “pai da política moderna” considerar outros fatores, como planejamento, inteligência e uma equipe bem preparada. Todavia, ninguém pode negar que coragem não lhe faltou.
A trajetória da bravura é repleta de exemplos de “padres dos balões” — figuras que, impulsionadas pela coragem, se lançaram em empreitadas sem a devida preparação. Isso me leva a questionar se o corajoso não seria apenas um proativo mal-informado ou, quem sabe, até um imprudente. Um caso emblemático é o de Pablo Marçal, que em 2022 decidiu liderar um grupo de 60 pessoas em uma escalada no Pico dos Marins, na Mantiqueira, em meio a chuvas e ventos de até 100 km/h. Ele afirmou que a subida era essencial para o crescimento pessoal. “Eu sei no meu coração que é possível”, disse ele, desconsiderando as condições adversas. Para ele, o que importava era a fé, mas o que realmente necessitavam era de informações precisas sobre o clima.
Na verdade, a qualidade que frequentemente acompanha os corajosos é a sorte. Nesse sentido, Maquiavel pode ter razão em sua observação. Em algumas situações, a Fortuna acaba recompensando a irresponsabilidade. Por exemplo, a pessoa que enfrenta quatro bandidos armados e sai vitoriosa não é necessariamente corajosa, mas pode ser apenas imprudente, mas com a sorte a seu favor – ou então, com o sobrenome Gracie ou Lee. No caso de Marçal, não foi a sorte, mas a ação dos bombeiros que salvou a vida do grupo de alpinistas.
Assim, se a coragem é supervalorizada, seu oposto, o medo, muitas vezes é mal interpretado como fraqueza. E discordo totalmente dessa visão. O que chamamos de medroso pode, na verdade, ser alguém bem-informado e cauteloso. Na verdade, quanto mais cultura e conhecimento uma pessoa possui, mais ciente ela está dos perigos que a vida impõe e, consequentemente, mais propensa a evitar riscos desnecessários.
