Aventuras Doces nas Águas do Acre
O equilíbrio entre criatividade e um toque de aventura define a rotina do confeiteiro acreano Charles Figueiredo, de 37 anos. Para atender a demanda de clientes localizados em áreas de difícil acesso no Acre, Charles encontrou nos barcos e canoas o meio ideal para transportar seus bolos decorados. Natural de Sena Madureira, ele combina sua experiência ribeirinha com a técnica adquirida em Rio Branco, garantindo o funcionamento do seu negócio entre os municípios.
Com 15 anos de atuação na confeitaria, o interesse de Charles por doces começou ainda na juventude. Aos 17 anos, ele ingressou no ramo de panificação em sua cidade e rapidamente se destacou, chegando a gerenciar uma padaria por oito anos. A virada para a confeitaria ocorreu em 2017, quando decidiu mudar de rumo e começou a trabalhar em uma doceria em Rio Branco. “Minha primeira experiência começou em 2017. Eu trabalhava em um supermercado e conheci uma doceria aqui na capital. Minha paixão começou a partir daí”, relembra.
O diferencial em suas entregas foi se moldando ao longo do tempo. Sendo filho de uma família do interior e acostumado com a vida às margens do Rio Purus, Charles decidiu levar suas criações para a comunidade onde seus pais residem, no Seringal Pacatuba, também conhecido como Comunidade Santa Amélia, em Sena Madureira. Ele relata que viveu no local até os 16 anos e que, curiosamente, nasceu de sete meses dentro de uma canoa, uma história que reflete sua forte ligação com a região.
Com o acesso à comunidade limitado, as entregas precisaram se ajustar à realidade local, resultando em um método de transporte bem singular. “Eu nasci no interior de Sena Madureira e sempre vou lá nas férias. Como eu já fazia bolos, tive a ideia de levar para lá também. E o único transporte é a canoa ou o barco. Sempre que vou, levo meu material, assim consigo montar os bolos. É uma aventura bem à parte”, explica Charles.
Bolando Sabores Regionais
Navegando entre idas e vindas pelo rio, ele transporta ingredientes, utensílios e encomendas prontas. O trajeto exige um cuidado redobrado, mas não diminui a demanda. Segundo Charles, os bolos de aniversário são os mais solicitados, especialmente em celebrações familiares. “São os mais procurados. Eu foco muito nos ingredientes regionais”, salienta.
Essa abordagem regional reflete-se também nas combinações de sabores. Um dos bolos mais populares de Charles leva ingredientes típicos, como cupuaçu e castanha-do-Brasil. O preparo do bolo começa com uma geleia simples, feita apenas com polpa da fruta, água e açúcar, cozida em fogo baixo até alcançar uma consistência mais densa. “O ponto é quando começa a soltar do fundo da panela”, detalha.
Na hora de montar o bolo, a massa recebe uma calda para garantir umidade e, em seguida, camadas de creme de cupuaçu, geleia e castanha. Para evitar que o recheio escorra, Charles cria uma barreira com o próprio creme. Após ser montado, o bolo deve descansar na geladeira por várias horas antes da finalização.
A cobertura leva merengue suíço, feito com claras e açúcar aquecidos e depois batidos até que formem picos firmes. O toque final é dado com o maçarico e detalhes com a própria geleia. Entre uma encomenda e outra, Charles navega pelo rio, levando também uma história que mescla origem, adaptação e empreendedorismo, tudo isso em meio à realidade ribeirinha onde cresceu. Mais do que apenas vender bolos, Charles se empenha em valorizar os sabores acreanos. “Eu tento trazer algo da nossa região. Uso cupuaçu, castanha, que são ingredientes principais nos doces”, conclui.
