Tensão e Conflito em Ato Público no Acre
Um ato de solidariedade ao povo venezuelano e de repúdio à intervenção dos Estados Unidos na Venezuela gerou momentos de tensão em Rio Branco, Acre, na tarde do último domingo (4). O protesto, organizado por diversas organizações e movimentos sociais de esquerda, foi realizado no Lago do Amor e, surpreendentemente, contou com a interrupção de um casal de venezuelanos que reside na região há cerca de oito anos. Juan e Eduvi González, ao se manifestarem, questionaram a legitimidade do ato que, segundo eles, não representava a voz dos verdadeiros afetados pela situação na Venezuela.
Durante os discursos, Eduvi tomou a palavra e, dirigindo-se aos presentes, perguntou: “Tem algum venezuelano aqui?”. Em seguida, expressou sua indignação: “Eu sou venezuelana. Se vocês não são venezuelanos ou não sentiram a dor, não podem falar. A gente é da Venezuela, a gente passou fome, a gente deixou nossa família”. A intervenção provocou uma reação instantânea entre alguns manifestantes, gerando um clima de discussão acalorada.
Juan González, que acompanhava a esposa, se envolveu em uma troca de palavras fervorosa com Hildo Montezuma, um professor e líder do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz, presente no ato. Em um momento de tensão, Juan afirmou: “Eu sou venezuelano, ninguém aqui é venezuelano, vocês têm que respeitar a Venezuela”. A resposta de Montezuma foi contundente: “Vai pros Estados Unidos”. O clima se tornou conturbado por alguns minutos, mas eventualmente o casal se afastou do centro da manifestação.
Contexto da Manifestação e a Realidade dos Venezuelanos
O ato continuou, com discursos em defesa da soberania venezuelana, da autodeterminação dos povos e críticas aos Estados Unidos, que os organizadores caracterizam como um agente imperialista. Os militantes expressaram apoio ao governo de Nicolás Maduro, que foi preso na madrugada de sábado (3) durante uma operação que, segundo relatos, visava desmantelar a alta liderança do regime chavista.
Mais tarde, em uma entrevista, Juan González explicou sua perspectiva sobre a realidade na Venezuela e sobre os motivos que o levaram a deixar seu país. “Graças a Deus estou no Brasil, porque tem muitos brasileiros que ajudam a gente. O nosso país está governado por um ditador. Tu acha que alguém vai querer viver num país blindado pelo narcotráfico? Ninguém vai querer”, destacou, ressaltando a grave crise que aflige sua terra natal e os desafios enfrentados pelos que dela fugiram.
A manifestação no Lago do Amor, que atraiu militantes de diversos partidos e movimentos sociais de esquerda, foi convocada como um ato de apoio ao povo venezuelano em um momento crítico. O evento deixou claro que a situação política na Venezuela ressoa fortemente fora de suas fronteiras, provocando reações e divisões, até mesmo entre aqueles que se dizem solidários.
O episódio ressalta a complexidade das narrativas em torno da crise venezuelana e como elas se cruzam com questões políticas no Brasil e nas Américas. A visão de um casal de venezuelanos, que vivenciou os efeitos diretos do governo Maduro, desafia as narrativas comumente apresentadas por grupos de esquerda e revela tensões que ainda precisam ser discutidas.
