Um Novo Paradigma na Política Brasileira
A ideia do “novo na política” vem sendo amplamente debatida no Brasil desde as Jornadas de Junho de 2013. A série de mobilizações populares daquele ano não apenas refletiu um descontentamento com o lulopetismo, mas também preparou o terreno para a ascensão do bolsonarismo na sequência. O termo, que deveria representar progresso e modernização nas práticas políticas e nas instituições, acabou sendo distorcido por uma retórica que deslegitima a própria política e a democracia. Isso levantou questões importantes sobre o verdadeiro sentido de renovação política no país.
Superadas as convulsões de um passado recente, o Brasil agora tem a oportunidade de redefinir o que significa realmente ser “novo” na política. Essa transformação não se relaciona com a teatralidade de candidatos que se apresentam como salvadores, mas frequentemente resultam em desorganização. Também não se trata de promessas de rupturas drásticas ou soluções mágicas que alimentam a frustração generalizada com a chamada “classe política”, em meio à polarização cada vez mais intensa entre figuras como Lula da Silva e Jair Bolsonaro. O que o Brasil realmente precisa é de um novo que não seja ruidoso, mas sim que trabalhe arduamente para promover transformações significativas, modernizando práticas, racionalizando políticas públicas e reinventando, sem destruir, as relações entre os Poderes.
O Contexto Global da Antipolítica
É importante notar que a antipolítica não é um fenômeno exclusivo do Brasil. O desprezo pela representação democrática geralmente surge quando esta é vista como uma fraude persistente. O resultado? A ascensão de figuras outsider cujo principal apelo é a promessa de “mudar tudo o que está aí” — mesmo que isso signifique destruir sem oferecer alternativas viáveis. O populismo autoritário, como observado no bolsonarismo, representa uma forma extrema dessa antipolítica, enquanto figuras como Pablo Marçal se tornam caricaturas dessa lógica.
No livro “Populism: A Very Short Introduction”, o cientista político Cas Mudde, referência em estudos sobre o extremismo e o populismo, argumenta que o populismo autoritário se fortalece quando líderes se apresentam como os únicos detentores da vontade do “povo puro” contra uma “elite corrupta”, misturando moralismo, autoritarismo e exclusão. Esse fenômeno se alimenta das frustrações de sociedades desiguais, mas oferece aos eleitores ilusões perigosas, como a ideia de que um líder forte pode resolver problemas complexos sem a necessidade de freios e contrapesos.
Qualidade e Confiança na Política
O verdadeiro desafio é qualificar a política, e não negá-la. Para isso, é imprescindível reconstruir a confiança, fundamento essencial de qualquer projeto nacional. Essa confiança não se gera por meio do populismo, mas sim por instituições previsíveis, políticas econômicas responsáveis e lideranças que tenham a coragem de apresentar a verdade ao público, mesmo quando esta seja desconfortável. Portanto, o novo na política deve canalizar a insatisfação popular em direções concretas, focando em melhorias graduais que evitem distrações com aventuras políticas.
A modernização exigida não implica menos política, mas mais: mais capacidade técnica, mais transparência e mais responsabilidade na gestão dos recursos públicos. Isso requer a coragem de enfrentar privilégios enraizados e a disposição de explicar ao cidadão que reformas estruturais demandam tempo e planejamento. O Estado deve estar preparado para planejar, avaliar e ajustar suas direções, abandonando a visão infantilizada de que governar é apenas expressar indignação e promover divisões.
Construindo um Futuro Coletivo
Para o Brasil e seus desafios, o novo não residirá em figuras folclóricas, slogans vazios ou na repetição de modelos desgastados. O que é necessário é um compromisso genuíno com a política como ferramenta de construção conjunta. É hora de recuperar a valorização da experiência associada à inovação, da responsabilidade fiscal combinada com a sensibilidade social e do diálogo institucional aliado à firmeza de propósitos. Essa abordagem é fundamental e, paradoxalmente, representa a diferença entre sociedades que evoluem e nações que permanecem aprisionadas em seus erros. Um alerta especialmente relevante em um ano eleitoral como 2026.
