Descobertas inéditas na Amazônia via tecnologia lidar
Um levantamento recente que abrangeu cerca de 4,8 mil quilômetros quadrados no Acre, sul do Amazonas, além de partes da Bolívia e do Peru, revelou quase 400 novos geoglifos na região amazônica. A pesquisa, publicada na revista científica Nature, reuniu uma equipe de pesquisadores brasileiros e finlandeses e utilizou tecnologia de ponta para mapear essas antigas construções.
O botânico Evandro Ferreira, da Universidade Federal do Acre (Ufac), que coordenou a equipe brasileira, explicou que apenas 9% das estruturas identificadas eram conhecidas anteriormente em áreas abertas. “Antes do levantamento, apenas 36 geoglifos eram conhecidos na região. Com as novas descobertas, o total chegou a 432”, declarou ao g1.
O que são geoglifos e como foram identificados
Os geoglifos são grandes formações feitas com valas e montes de terra organizados em padrões geométricos. Para identificar essas estruturas, os cientistas utilizaram aviões equipados com tecnologia lidar — um radar a laser que permite mapear áreas em três dimensões, penetrando a vegetação e revelando a topografia do solo.
Durante os sobrevoos, os dados coletados são processados digitalmente para remover virtualmente a cobertura vegetal, expondo as marcas e construções escondidas pela floresta. Parte dos voos saiu de Manoel Urbano, no Acre, seguindo para Catuiri, no Amazonas, até Lábrea, além de linhas entre Rio Branco, Boca do Acre e Lábrea, cobrindo faixas de aproximadamente 10 quilômetros.
Ampliação do conhecimento sobre a ocupação humana na Amazônia
Antes do uso dessa tecnologia, a maior parte dos geoglifos era encontrada em áreas desmatadas, visíveis por imagens aéreas e de satélite. A nova pesquisa ampliou significativamente o conhecimento ao mapear estruturas em regiões ainda cobertas pela floresta.
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Fonte: alagoasinforma.com.br
O estudo baseou-se em trabalhos anteriores, como o publicado em 2023 por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que indicaram a existência de milhares de geoglifos ocultos sob a vegetação. Um levantamento daquele ano identificou cerca de 1,2 mil estruturas em áreas já desmatadas, motivando a ampliação da investigação para o sul da Amazônia.
Estimativa de até 30 mil geoglifos na região
Com base na quantidade de estruturas encontradas, os pesquisadores estimam que a área de 185 mil quilômetros quadrados — que abrange parte do Acre, sul do Amazonas, norte de Rondônia, além de regiões da Bolívia e Peru — pode conter até 30 mil geoglifos. Essa projeção supera a estimativa anterior, que apontava cerca de 10 mil estruturas desconhecidas para toda a Amazônia.
Evandro Ferreira ressalta que essa nova estimativa considera uma área muito menor em comparação aos mais de 4 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia, mostrando o potencial significativo de descobertas futuras caso a floresta seja removida.
Novas perspectivas sobre a ocupação nos interflúvios
O estudo também traz informações inéditas sobre como os povos antigos ocuparam a Amazônia. Tradicionalmente, a presença humana estava associada às margens dos grandes rios, facilitando acesso à água e recursos naturais. Contudo, os geoglifos identificados ficam em regiões chamadas interflúvios, áreas entre rios que apresentam desafios como a escassez de água e dificuldades para caça e agricultura.
Isso indica que antigas populações desenvolveram estratégias avançadas para sobreviver e se organizar longe dos rios, mesmo enfrentando períodos de seca intensa. O conhecimento profundo da floresta e métodos adaptados garantiram a subsistência e construção dessas complexas estruturas.
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Civilização Aquiry e a magnitude da ocupação humana
Os geoglifos são atribuídos à civilização Aquiry, que habitou o sul da Amazônia antes da chegada dos europeus. As primeiras construções datam entre 600 e 400 anos antes de Cristo, enquanto as mais recentes chegam a cerca do ano 900 depois de Cristo, indicando aproximadamente 1,5 mil anos de ocupação contínua.
Segundo Evandro, cada geoglifo demandava o trabalho de pelo menos 300 pessoas, além de uma organização social capaz de garantir alimentação e manutenção, envolvendo atividades agrícolas, caça e pesca. A estimativa populacional para o período entre os anos 100 e 300 depois de Cristo varia entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas, considerando a ocupação e construção ao longo do tempo, e não simultânea.
Desafios para preservação diante da agricultura mecanizada
A pesquisa destaca também o risco que a expansão da agricultura mecanizada representa para a preservação dos geoglifos, que são patrimônio cultural protegido por lei. Municípios do Acre, como Capixaba e Acrelândia, além de áreas próximas a Boca do Acre, no Amazonas, estão entre regiões onde a atividade agrícola avançou nos últimos anos.
A remoção da floresta pode revelar novas estruturas, mas também intensificar o conflito entre conservação arqueológica e uso econômico da terra. Evandro alerta que o aumento do desmatamento provavelmente exporá muitos geoglifos, limitando a expansão agrícola nessas áreas devido à legislação que protege esses sítios.
Com essa descoberta, o desafio agora é equilibrar a conservação do patrimônio arqueológico com o desenvolvimento econômico regional, promovendo uma gestão sustentável e que valorize a história da Amazônia.
