Café se Consolida como Alternativa Sustentável no Acre
No Acre, a produção de café tem se destacado como uma alternativa promissora para a geração de renda, especialmente entre pequenos e médios agricultores que buscam ampliar sua produção sem a necessidade de desmatar novas áreas. O enfoque está em utilizar terras já degradadas, possibilitando que as famílias permaneçam ativas no campo e ao mesmo tempo preservem a floresta.
Dados recentes mostram um crescimento significativo na cafeicultura acreana. Em dezembro de 2025, segundo o levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção no estado saltou de 3.079 toneladas para 6.632 toneladas, um impressionante aumento de 115,4%. O valor bruto da produção (VBP) atingiu R$ 139,6 milhões, refletindo um crescimento de 428% entre 2018 e 2025, superando até mesmo a produção de soja em valor.
A Secretaria de Agricultura do Estado (Seagri) atribui este crescimento a diversos fatores, entre eles, o desenvolvimento técnico e a pesquisa, além do apoio financeiro através de linhas de crédito específicas para os cultivadores de café. O café do Acre, que agora integra a cesta básica, conta com uma tributação reduzida de 7%, em contraste com os 19% aplicados ao café oriundo de outras regiões.
Alternativa ao Desmatamento: Potencial do Café Amazônico
Para Aureny Maria Pereira Lunz, pesquisadora da Embrapa-Acre e especialista em Fitotecnia, a expansão da cafeicultura representa uma alternativa significativa contra o desmatamento. As condições edafoclimáticas da Amazônia, com solo fértil e clima propício, favorecem especialmente o cultivo do café robusta (Coffea canephora), a variedade mais adaptada às altitudes baixas da região. Em colaboração com o Sebrae, a Embrapa lançou materiais informativos, como catálogos e guias, para auxiliar os produtores.
“Não é necessário desmatar a floresta para implantar a cafeicultura”, enfatiza Aureny. Estudos da Embrapa indicam que cerca de 78% das áreas já desmatadas no Acre são aptas para o cultivo do café, principalmente em pastagens degradadas. Essa abordagem não só preserva a floresta, mas também promove uma recuperação produtiva do solo.
Além disso, a conversão de áreas degradadas em lavouras de café pode gerar ganhos ambientais substanciais. Pesquisas demonstram que o cultivo do café robusta amazônico pode sequestrar mais carbono do que emite, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas. O crescimento da cafeicultura no Acre tem sido impulsionado pela melhoria da produtividade, com um aumento de 195% na produção nos últimos dez anos, enquanto a área cultivada cresceu apenas 36%.
Histórias de Sucesso na Cafeicultura: A Família Lara
Um exemplo inspirador é a família Lara, que reside em Acrelândia e que gerencia toda a cadeia produtiva do café, do plantio à xícara. Eliane e Wanderlei Lara, que se mudaram para o Acre em 1998, começaram suas atividades combinando café e pecuária. Com o passar do tempo, decidiram focar exclusivamente no cultivo de café. “Antes, com o café tradicional, a produção variava entre 15 e 20 sacas por hectare. Agora, com os clones de robusta, atingimos 152 sacas por hectare na última safra”, revela Wanderlei.
O sucesso da família Lara reflete uma tendência maior no Acre, onde muitos produtores estão abandonando a pecuária em favor da cafeicultura. Eles mantêm um viveiro que produz cerca de 600 mil mudas de café por ano, atendendo tanto suas necessidades quanto as de outros agricultores da região. “Estamos investindo em práticas sustentáveis e na conservação das nascentes, o que ajuda a evitar novos desmatamentos”, completa Wanderlei.
O Futuro da Cafeicultura no Acre
Acrelândia, situada no leste do Acre, é uma área que tem enfrentado pressões ambientalistas, com o desmatamento sendo uma preocupação crescente. Contudo, a substituição da pecuária pelo café em áreas já desmatadas está se mostrando uma solução viável. “Mais de 90% da produção de café no Acre é oriunda da agricultura familiar”, destaca o Governo do Estado.
Lucas Rocha Schereiber, de 26 anos, exemplifica a nova geração de produtores que estão se estabelecendo no campo. Ele, que cresceu em Acrelândia, encontrou no café uma forma de sustentar sua família. Com a ajuda de crédito do Sicredi, Lucas conseguiu investir em melhores práticas de cultivo, aumentando sua produção para 1.200 sacas de café a partir de uma pequena área. “O acesso ao crédito foi fundamental para a nossa transformação”, conta.
O processo de regularização ambiental, que inclui o Cadastro Ambiental Rural (CAR), é essencial para que os agricultores possam continuar suas atividades sem expandir a fronteira agrícola. A regularização ajuda a identificar áreas de preservação e possibilita a adesão ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), que oferece apoio na recuperação de áreas degradadas.
As experiências da família Lara e de Lucas são exemplos de como a cafeicultura no Acre está se consolidando como uma atividade sustentável e lucrativa. Ao focar na produção em áreas já abertas e buscar a qualidade, os produtores estão conseguindo ampliar sua renda e, ao mesmo tempo, respeitar a floresta. Assim, o café se torna um pilar nas discussões sobre a produção sustentável e o futuro econômico do estado, crucial para a preservação da Amazônia.
