Entendendo o Papel da Biopolítica
Ao abordar o conceito de biopolítica, Michel Foucault oferece uma perspectiva essencial para decifrar as dinâmicas de poder nas sociedades modernas. Desde o século XVIII, o poder mudou sua forma de atuação, deixando de se basear apenas na ameaça da morte. A partir desse período, ele passou a se organizar em torno da administração da vida: quem deve viver, como deve viver, sob quais condições e a serviço de que interesses. Dessa forma, a vida se transforma em objeto de gestão, regulação e produtividade.
Entretanto, nem todos os modos de vida se encaixam facilmente nesse projeto. Quando a existência toma rumos diferentes – como no caso de transições de gênero e reinvenções pessoais –, a estrutura de poder busca reverter essa mudança. Corrigir, ajustar e enquadrar são ações comuns no contexto do controle do poder. Em linhas gerais, essa dinâmica instrumentaliza a transfobia como uma tecnologia social, não apenas como um preconceito individual, mas como um mecanismo estrutural que permeia instituições, políticas públicas e, de maneira significativa, o mercado de trabalho.
Mercado de Trabalho e Biopolítica
O mercado de trabalho, longe de ser um espaço imparcial, representa um dos principais dispositivos dessa engrenagem social. É nesse ambiente que a biopolítica se manifesta cotidianamente, traduzindo normas abstratas em práticas concretas de inclusão e exclusão. Processos seletivos, critérios de empregabilidade e métricas de desempenho não só organizam a produção econômica, mas também determinam quais corpos são vistos como confiáveis, produtivos e legítimos.
Ao funcionar dessa maneira, o mercado não apenas reflete desigualdades sociais que já existem, mas também as cria, reforça e naturaliza. De acordo com o estudo “A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal”, publicado pelo Ipea em 2025, apenas 25% das pessoas transgêneros registradas conseguem acesso ao emprego formal. Além disso, entre as mulheres trans, essa porcentagem é ainda menor. Mesmo quando conseguem se inserir no mercado, as pessoas trans recebem em média 32% a menos do que a população em geral, evidenciando não só desigualdade econômica, mas um mecanismo biopolítico atuante.
Precarização e Exclusão Social
No contexto atual, marcado pela “plataformização” do trabalho e pela proliferação de contratos informais, a exclusão do emprego formal se torna um destino social para muitas pessoas. Para aquelas que se identificam como trans, estar fora do mercado de trabalho formal implica permanecer à margem dos sistemas de proteção, previdência e reconhecimento, vivendo em uma zona tolerada, mas não verdadeiramente reconhecida. O risco, como aponta o estudo do Ipea, não é apenas a precarização individual, mas a cristalização da exclusão, em que o futuro do trabalho, ao invés de ampliar oportunidades, solidifica trajetórias inteiras fora da cidadania laboral.
Concentração em Setores de Baixa Remuneração
Outro dado importante da pesquisa revela a alta concentração de pessoas trans em setores de baixa remuneração e menor prestígio social. Os segmentos de comércio, serviços administrativos e alimentação continuam sendo os principais destinos dessas pessoas. Mesmo quando se aventuram em áreas associadas à inovação, como a comunicação e a tecnologia da informação, isso não garante melhores condições de trabalho.
A identidade de gênero se configura como um marcador central das desigualdades no mercado de trabalho brasileiro. Quando apenas uma fração das pessoas trans consegue acesso ao emprego formal, o que está em jogo é mais que uma simples exclusão econômica; trata-se da formação de um grupo que, segundo o economista britânico Guy Standing, é empurrado para o que ele descreve como precariado: uma condição marcada por instabilidade crônica, ausência de direitos e a impossibilidade de planejar o futuro. Ignorar esses dados ao projetar cenários futuros é aceitar tacitamente um mercado que naturaliza a insegurança como destino para alguns corpos enquanto concede estabilidade como privilégio a outros.
Caminhos para a Inclusão e a Sustentabilidade no Trabalho
Esse cenário mostra que a baixa inserção no mercado de trabalho, aliada à concentração em ocupações instáveis, aponta para um modelo que testa seus limites sobre os corpos com menor proteção social. A precarização frequentemente é experimentada primeiro por quem já vive à margem. Para as pessoas trans, isso significa a consolidação de trajetórias fora da proteção social, onde trabalhar não assegura estabilidade, pertencimento ou um futuro, mas apenas uma contínua luta pela sobrevivência.
É crucial ressaltar que o mercado de trabalho não se regulará por conta própria. As evidências demonstram que, na ausência de uma intervenção deliberada, ele acaba por reproduzir e aprofundar desigualdades já existentes. Nesse contexto, a diversidade, equidade e inclusão devem ser vistas como decisões estruturais de negócios, em vez de uma mera agenda moral ou estratégia de marketing. Revisar processos de contratação, avaliação, remuneração e retenção é fundamental para romper com um futuro que continua a excluir os mesmos corpos e para construir um mercado que suporte simultaneamente trabalho, inovação e vida.
