Movimento pela Preservação do Alto Santo
Um novo movimento surge em defesa do Sítio Histórico do Alto Santo, localizado em Rio Branco, Acre, promovendo a abertura de um processo de tombamento em nível federal. A ação visa apoiar a dignitária Peregrina Gomes Serra, do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU), e será formalmente encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O principal objetivo é garantir que o Alto Santo receba o reconhecimento como Patrimônio Cultural Material do Brasil, valorizando sua importância religiosa, histórica, cultural, arquitetônica e antropológica, especialmente para a Amazônia e a construção da identidade nacional. Conhecido como berço da doutrina do Daime, o sítio abriga um conjunto singular de edificações, espaços naturais e práticas tradicionais que refletem uma das mais emblemáticas formatações espirituais da região no século XX.
Entre os marcos históricos que compõem o Alto Santo estão a antiga residência do casal, que hoje abriga o Memorial Raimundo Irineu Serra, a sede do CICLU, onde ocorrem os rituais, e a Casa de Feitio, destinada ao preparo do Daime. Além disso, é possível encontrar a Cacimba, escavada pelo próprio Mestre Irineu, o Cemitério Palmeiral, que abriga os pioneiros da irmandade, a Capela do Túmulo — local de devoção e peregrinação — e a casa de Leôncio Gome da Silva, que também é um memorial importante.
Peregrina Gomes Serra, viúva do fundador da doutrina, se destaca como a guardiã de uma das tradições religiosas mais singulares da Amazônia brasileira. Em breve, ela formalizará um pedido junto ao MPF e ao Iphan, buscando o reconhecimento do Sítio Histórico do Alto Santo como Patrimônio Cultural Material do Brasil.
Esse pedido será respaldado por uma documentação técnica e um acervo histórico que refletem não apenas o reconhecimento da comunidade local, mas também de praticantes da doutrina e estudiosos que identificam no Alto Santo um dos processos mais relevantes de formação religiosa da Amazônia. Um dossiê já está pronto, com ampla documentação, incluindo teses acadêmicas, fotografias e vídeos. O material contém um texto de 30 páginas, elaborado por dois jornalistas e um advogado do Alto Santo, que descreve o sítio histórico, seu entorno, os monumentos e a caracterização dos bens, abordando aspectos como a legitimidade social e a integralidade do território cultural.
Para garantir a formalidade do pedido, é essencial que ele seja amplamente respaldado por um abaixo-assinado. Este poderá ser assinado por membros da comunidade do Alto Santo, incluindo familiares de Raimundo Irineu Serra e Peregrina Gomes Serra, praticantes da doutrina de diversas partes do Brasil, e moradores da Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra, além de personalidades e autoridades. Essa mobilização representa uma manifestação concreta de pertencimento, reconhecimento social e adesão coletiva à proposta de proteção patrimonial, conferindo uma significativa legitimidade social à iniciativa.
O Alto Santo, situado em uma área elevada de Rio Branco, no bairro Irineu Serra, é o núcleo original da doutrina do Daime, uma tradição espiritual amazônica que começou a se estruturar em 1930, sob a liderança de Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu. Foi nesse local que o líder religioso estabeleceu sua residência e organizou a comunidade que daria origem a uma das experiências religiosas mais expressivas do século XX na região.
O pedido de dona Peregrina encontra respaldo na Constituição Federal e na legislação de proteção ao patrimônio histórico. Mais do que apenas um conjunto de edificações, o Alto Santo é apresentado como um território cultural integrado, onde práticas religiosas, saberes tradicionais e formas de organização comunitária se entrelaçam em uma relação simbólica com a floresta.
A doutrina do Daime, presente nesse espaço, é fruto da confluência de diversas matrizes culturais, desde o cristianismo popular até tradições indígenas e africanas, formando uma expressão espiritual original que hoje se espalha pelo Brasil e pelo exterior. Todos esses elementos devem ser compreendidos em conjunto, pois constituem uma articulação entre arquitetura, paisagem, memória e prática ritual, formando uma paisagem cultural viva. A continuidade dessas práticas, mantidas ao longo de décadas, é apontada como um ponto crucial que confere autenticidade e relevância ao sítio.
Outro aspecto importante é a relação intrínseca entre a cultura e a natureza. Inserido na Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra, o Alto Santo mantém remanescentes de floresta essenciais para a prática religiosa, que depende de espécies vegetais específicas para a preparação da bebida sacramental. A interação entre o ambiente natural e a vida espiritual é vista como um elemento fundamental que estruturalmente define a identidade desse lugar, destacando a riqueza cultural e a importância desse patrimônio para o Brasil.
