Ameaças de Investigação e a Resposta de Powell
Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), trouxe à luz uma situação alarmante ao revelar que o Departamento de Justiça notificou a instituição com intimações de um grande júri. A ameaça de uma acusação criminal relacionada ao seu depoimento no Senado, feito no ano passado sobre a reforma dos edifícios históricos do Fed, acendeu um sinal de alerta sobre a pressão política que a autoridade monetária vem enfrentando.
Para Powell, essa ação não se justifica nem pelo conteúdo do projeto em questão nem pelo papel de fiscalização que cabe ao Congresso. Ele classificou esse episódio como uma escalada das pressões políticas, com o intuito de constranger o banco central e influenciar a política monetária dos EUA, especialmente visando acelerar os cortes na taxa de juros.
“Respeito profundamente o Estado de Direito e a responsabilização na nossa democracia. Ninguém — especialmente o presidente do Fed — está acima da lei. Contudo, essa ação sem precedentes deve ser analisada dentro do contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo”, afirmou Powell, destacando a seriedade da situação.
Impacto nas Relações entre o Fed e o Executivo
As declarações de Powell marcam uma mudança significativa nas relações entre o Federal Reserve e a Casa Branca. Esta é a primeira vez que, desde que assumiu a presidência do banco central em 2018, ele aponta publicamente para a administração presidencial como uma fonte de tentativas de interferência na política monetária, utilizando mecanismos legais.
Ao fazer isso, Powell não apenas respondeu a uma investigação, mas também afirmou um embate institucional sobre quem deve ditar os rumos da economia americana. Durante suas declarações, ele expressou preocupações sobre a possibilidade de que as decisões sobre a taxa de juros sejam influenciadas por pressões políticas em vez de serem baseadas em evidências econômicas concretas.
“A questão é saber se o Fed terá a liberdade de definir as taxas de juros com base em dados e condições econômicas, ou se essas decisões serão moldadas por pressões políticas ou intimidações”, disse Powell, refletindo sobre a crítica situação.
Trump e a Crítica ao Fed
A relação entre Powell e o ex-presidente Donald Trump já estava desgastada, especialmente com as críticas crescentes à condução da política monetária. Desde o retorno de Trump ao cargo, ele tem pressionado por cortes mais agressivos nas taxas de juros, culpando o Fed por, em sua visão, frear o crescimento econômico.
Nos últimos meses, o republicano chegou a sugerir publicamente a demissão de Powell, apesar das salvaguardas legais que protegem o mandato do presidente do banco central. O episódio da reforma dos prédios do Fed se tornou um novo foco de tensão, com o governo Trump considerando o projeto de modernização excessivamente caro.
Powell reiterou, em várias ocasiões, ao Congresso que as atualizações na infraestrutura eram necessárias e que o Fed manteve os parlamentares informados por meio de comunicações oficiais. No entanto, ele assegurou que as acusações foram manipuladas como uma justificativa para intensificar a pressão política sobre a instituição.
Reações do Mercado e de Especialistas
A repercussão desse episódio foi imediata nas bolsas de valores. Na segunda-feira, o Dow Jones registrou uma queda de 0,12%, enquanto o S&P 500 subiu 0,07% e o Nasdaq teve alta de 0,33%. No mercado cambial, o dólar global perdeu força, com o índice que mede a moeda em relação a outras divisas caindo 0,37%, para 98,87. Por outro lado, o ouro, considerado um ativo de proteção, registrou um aumento de 2,38%, alcançando US$ 4.617 por onça.
O economista-chefe do Goldman Sachs, Jan Hatzius, comentou que a ameaça de denúncia criminal contra Powell intensifica as preocupações sobre a independência do banco central. Durante um evento do banco em Londres, ele destacou que tais desenvolvimentos fomentam um debate sobre a institucionalidade da economia americana. Hatzius, que faz parte do comitê de administração do Goldman Sachs, disse: “Não tenho dúvidas de que Powell tomará decisões baseadas em dados econômicos, sem se deixar influenciar por pressões externas”.
Declaração de Ex-autoridades e a Resposta da Casa Branca
Essa situação provocou uma reação sem precedentes de ex-integrantes de altos cargos econômicos dos EUA. Em uma declaração conjunta, ex-presidentes do Fed e ex-secretários do Tesouro condenaram a investigação como uma tentativa sem precedentes de minar a autonomia do banco central, afirmando que ataques de natureza criminal contra autoridades monetárias são característicos de regimes com instituições frágeis. Eles alertaram sobre as consequências negativas que isso pode ter para a inflação e para o funcionamento da economia.
A Casa Branca, por sua vez, negou que o governo Trump tenha ordenado uma investigação contra Powell. A secretária de imprensa, Karoline Leavitt, esclareceu que o presidente não determinou qualquer apuração sobre um suposto engano ao Congresso em relação ao depoimento sobre a reforma do complexo do Fed, em Washington.
