A relação entre jornalistas e políticos no Acre
A política é, em sua essência, uma arena repleta de cálculos e estratégias. No Acre, assim como em outros Estados brasileiros, a interação entre políticos e jornalistas oscila entre cordialidade pública e conveniência privada. Durante uma coletiva, com microfones abertos e gravadores em ação, o profissional da imprensa é tratado como um pilar fundamental da democracia. Contudo, uma vez que os holofotes se apagam, muitas vezes o reconhecimento que antes era visível desaparece.
O jornalismo acreano tem raízes profundas, marcadas por coragem e resistência, mas também por desilusões. Muitos jornalistas que contribuíram para a formação da narrativa política no Estado, alguns já falecidos, vivenciaram, em momentos críticos, o afastamento de aqueles que antes os cercavam com sorrisos, tapinhas nas costas e elogios entusiasmados. No auge de suas carreiras, eram considerados “os melhores”, “indispensáveis” e “amigos”. Entretanto, ao adoecerem, envelhecerem ou simplesmente deixarem de ocupar posições estratégicas, tornaram-se invisíveis.
A ilusão da amizade e a hierarquia dos interesses
Essa dinâmica não é exclusiva da cena local, mas no Acre, onde as relações são mais próximas e os círculos de poder mais restritos, ela ganha contornos ainda mais sensíveis. A proximidade gera a ilusão de amizade, enquanto a prática do poder revela a hierarquia por trás dos interesses.
Por natureza, a política busca ser vista e legitimada. O jornalista, nesse contexto, atua como o elo entre os políticos e a sociedade. Enquanto a utilidade persiste — seja para divulgar ações, defender narrativas ou construir reputações — o afeto parece genuíno. Porém, quando essa utilidade se extingue, os laços se desfazem. Não é incomum que a relação se transforme em indiferença.
Exceções à regra
É justo pontuar que existem políticos que reconhecem o papel fundamental da imprensa e mantêm um respeito genuíno, independentemente das circunstâncias. No entanto, a conveniência continua a ditar muitos dos laços estabelecidos. O elogio fácil, proferido em público, frequentemente é mais tática do que verdadeira admiração.
Para os jornalistas em início de carreira, um alerta se destaca, ecoando as experiências dos veteranos: não confundam acesso com amizade, e nem elogio com lealdade. Um tapinha nas costas acompanhado da frase “você é o cara” pode, na verdade, ser apenas um indicativo de que, naquele instante, seu trabalho atende a um interesse particular.
A dura realidade
O teste que se impõe é, ao mesmo tempo, simples e desafiador: ao deixar de ocupar um espaço de destaque ou parar de produzir, observe quantos permanecem ao seu redor. O apreço, que antes parecia genuíno, pode se revelar rapidamente como algo superficial, transformando-se em indiferença.
Essa realidade não deve ser fonte de amargura, mas sim de reflexão. O jornalismo não existe para agradar os detentores do poder; sua missão é fiscalizar, interpretar e questionar. A independência do jornalista é, portanto, sua maior virtude, mas também o maior preço a ser pago pela profissão.
Autonomia e dignidade no Acre
No contexto acreano, onde a memória política é resiliente e os ciclos de poder se alternam com frequência, manter a autonomia é uma questão não apenas de sobrevivência profissional, mas de dignidade pessoal. A história tem mostrado que mandatos passam, cargos se encerram e lideranças mudam. No entanto, o registro jornalístico permanece.
Em última análise, a melhor defesa do jornalista não reside em elogios momentâneos, mas na credibilidade construída ao longo do tempo. O respeito verdadeiro não emerge da conveniência; ele nasce da coerência. O resto? Bem, isso é pura política, e como é sabido, a política é volúvel.
Assim, a vida segue!
