As Armadilhas da Tecnologia nas Eleições
A cada eleição, a tecnologia promete revolucionar nossa forma de informar, decidir e participar da vida democrática. Contudo, em 2026, essa promessa revela um lado obscuro, com a inteligência artificial (IA) no epicentro dessa problemática.
Casos de deepfakes e campanhas de desinformação não são mais hipóteses remotas. Recentemente, o arresto de Nicolás Maduro gerou uma onda de conteúdos falsos que invadiram as redes sociais. Imagens e vídeos manipulados, criados e amplificados por ferramentas de IA, dominaram as plataformas, distorcendo a realidade e confundindo o público.
A disseminação de informações falsas sobre a captura de Maduro ganhou força em redes como X, Instagram e TikTok, misturando elementos reais com produções de IA de maneira quase indiscernível para muitos usuários. Imagine agora essa forma de manipulação sendo utilizada em um contexto eleitoral que se aproxima.
A possibilidade de criar conteúdo falso em larga escala, direcionado a grupos específicos de eleitores, é alarmante. Mensagens podem ser adaptadas com uma precisão impressionante, alcançando o eleitorado de maneira mais eficaz do que nunca.
Esse cenário não é uma mera fantasia futurista: já existem campanhas de desinformação que utilizam IA para espalhar narrativas contraditórias e desestabilizadoras em períodos de crise. O resultado dessa enxurrada de informações fraudulentas vai além da confusão momentânea; ela corrói a confiança nas instituições, alimenta teorias conspiratórias e cria um ambiente onde muitos que foram expostos a informações enganosas sequer conseguem acessar as correções.
Em uma realidade onde ‘tudo pode ser falso’, a base mínima de confiança necessária para um debate democrático saudável se desintegra. O mais preocupante é que essa tecnologia está ao alcance de qualquer pessoa. Ferramentas que geram vídeos e áudios enganosos já estão disponíveis para grupos políticos, partidos e até indivíduos mal-intencionados, sem a devida supervisão.
Esse acesso irrestrito representa um risco claro ao processo eleitoral: eleitores podem ser influenciados por ‘provas’ fabricadas de promessas, escândalos ou declarações fabricadas atribuídas a candidatos e seus adversários. Portanto, o aviso não deve ser visto apenas como uma questão técnica; é também um alerta institucional. Candidatos, partidos, Ministério Público e Justiça Eleitoral não podem encarar a IA como um truque isolado ou uma inovação passageira.
É urgente a adoção de mecanismos ágeis de verificação, a formação de parcerias com plataformas digitais e a implementação de campanhas públicas que orientem os eleitores a questionar e verificar informações antes de compartilhar. Ao mesmo tempo, é vital que a responsabilidade não recaia sobre a demonização da inteligência artificial. A IA pode ser uma aliada na melhoria da informação, filtrando conteúdos falsos, automatizando checagens e tornando dados eleitorais mais acessíveis.
No entanto, na ausência de regras, fiscalização e educação digital, a IA pode se transformar em uma ferramenta poderosa contra a própria democracia. Com a proximidade de um ciclo eleitoral que promete ser marcado por polarização e competição intensa, é fundamental antecipar-se ao uso indevido da IA. Caso contrário, a decisão do eleitor poderá não se basear em propostas ou projetos de governo, mas sim na realidade que ele escolhe acreditar.
