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    Cultura de Violência: O Que Leva À Morte de Mulheres no Acre?

    Cultura de Violência: O Que Leva À Morte de Mulheres no Acre?

    Economia 19/02/2026
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    Contexto Alarmante

    A pergunta sobre o motivo pelo qual mulheres continuam sendo mortas por homens no Acre é frequentemente levantada, especialmente após eventos trágicos que chocam a população. Recentemente, durante o feriado de Carnaval, uma situação grotesca veio à tona: um estupro coletivo supostamente envolvendo atletas do clube de futebol Vasco da Gama do Acre. A investigação policial foi iniciada e seguirá seu curso regular, com a expectativa de que os fatos sejam apurados dentro do devido processo legal.

    Contudo, o que realmente gera indignação é a declaração do treinador da equipe, que abordou o caso com uma naturalidade perturbadora. Ele aludiu à ideia de que os agressores eram “homens longe de casa” e insinuou que a presença de mulheres no alojamento do time era algo comum. Além disso, recorreu à estigmatização das mulheres, utilizando o rótulo “Maria Chuteira”. Esses comentários, que circulam amplamente pela imprensa e pelas redes sociais, revelam uma cultura que minimiza a responsabilidade dos agressores enquanto aponta o dedo para as vítimas.

    Feminicídio e Cultura de Silenciamento

    É crucial reconhecer que o incidente em questão não é um caso isolado. O Acre, infelizmente, se destaca em estatísticas de feminicídio e agressões sexuais, posicionado entre os estados com os maiores índices do Brasil. Para aqueles que duvidam, é possível acessar dados na plataforma do Feminicidômetro e no Anuário de Indicadores de Violência do Acre. Esses números não são meras estatísticas; eles refletem padrões que permeiam nossa sociedade, onde a permissividade em relação a tais comportamentos se torna evidente através de discursos como o do treinador.

    Quando se menciona a condição de “homens longe de casa”, há uma minimização da responsabilidade individual, sugerindo que a geografia pode atenuar escolhas morais. Contudo, a ética não deve ser relativizada. A distância física não apaga a capacidade de uma pessoa tomar decisões conscientes e responsáveis.

    Reconfiguração de Narrativas

    Além disso, usar o termo “invadiram” em relação às mulheres que supostamente entraram no alojamento é um indicativo de como a narrativa é moldada. Essa escolha de palavras desloca a responsabilidade dos agressos para as vítimas, o que, simbolicamente, as transforma em responsáveis pelo ato cometido contra elas. A categorização da mulher como “Maria Chuteira” reduz a sua identidade a um estereótipo, desumanizando-a e afastando-a do status de sujeito de direitos.

    A violência de gênero não se inicia com o ato extremo, mas sim com as narrativas que a legitimam, e que em última análise, a tornam tolerável na sociedade. Como bem alerta a pesquisadora Rita Segato, essa linguagem de poder é fundamental na perpetuação da violência. Pierre Bourdieu complementa essa ideia ao afirmar que a violência simbólica se torna eficaz quando se naturaliza, omitindo-se como tal.

    O Papel da Sociedade

    A culpabilização das vítimas, frequentemente justificada por comentários sociais, enfraquece a cultura do consentimento. Ao deslocar a responsabilidade dos agressores para as circunstâncias ou o comportamento das mulheres, reforça-se o padrão de violência que as estatísticas claramente evidenciam. Isso aumenta o risco a que as mulheres estão expostas, contribuindo para uma realidade onde muitas acabam perdendo a vida.

    Portanto, não basta reagir aos casos já consumados; é necessário questionar e revisar as estruturas que possibilitam essa violência. A sociedade, incluindo as instituições que formam e mobilizam jovens, possui uma responsabilidade clara: tratar a dignidade das mulheres não como um discurso flexível, mas como um valor essencial.

    Avanços Necessários

    A partir de 2014, o Ministério Público do Estado do Acre fez da vítima o foco de suas ações. Desde 2016, a violência de gênero contra mulheres e a comunidade LGBTQIA+ passou a contar com canais de acolhimento qualificado. Em 2018, foi criada a Ouvidoria da Mulher, que continua a promover a escuta ativa de vítimas de violência, e em 2023, essa agenda ganhou ainda mais relevância dentro do MPAC.

    Apesar dos avanços, é evidente que ainda há um longo caminho a percorrer para fortalecer e implementar de forma efetiva as políticas públicas voltadas para a prevenção e combate à violência de gênero. Medidas estruturais e investimentos consistentes são essenciais, assim como a educação em direitos humanos e gênero.

    A Reflexão Necessária

    Por fim, a pergunta que ressoa é: que tipo de sociedade desejamos construir? Aquela que desconsidera a dignidade feminina ou uma que afirma inequivocamente que nenhuma mulher deve ser vista como uma justificativa para a violência? A fala do treinador e os comentários que a sustentam nos convocam à reflexão. Precisamos olhar para a raiz do problema e agir com responsabilidade. O que ocorreu recentemente no Acre é inaceitável para uma sociedade que busca a paz e a igualdade.

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