Crescimento Alarmante das Intoxicações
Em 2025, o Brasil enfrentou um cenário preocupante no que diz respeito às intoxicações por agrotóxicos, atingindo o maior número de registros em sua história. Foram 9.729 casos ao longo do ano, resultando em uma média de 27 incidentes diários. Essa análise, realizada pela Repórter Brasil e divulgada pelo climainfo, baseou-se em dados do Ministério da Saúde e revelou um aumento significativo de 84% em comparação a 2015, ano em que começou a coleta dessa série histórica.
Quando se observam apenas os incidentes não intencionais, fica evidente que os homens com idades entre 20 e 39 anos são os mais afetados, concentrando 70% dos casos reportados. Mais da metade deles, ou seja, 54%, ocorre no ambiente de trabalho, sendo que 80% dessas situações estão diretamente relacionadas ao uso de agrotóxicos nas atividades agrícolas. Desde o início da série, o Brasil já contabilizou 73.391 notificações por intoxicação, conforme indicado pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).
Estados Mais Afetados
O Espírito Santo destacou-se como o estado com o maior número de intoxicações em 2025, representando 10% do total de registros. Na sequência, Tocantins, Rondônia, Acre e Roraima, todos localizados na região Norte do país, também figuram entre os estados mais afetados. Esse quadro reforça a conexão entre o crescimento do agronegócio e os impactos sociais e ambientais nessas áreas.
Pesquisadores apontam que o aumento dos casos de intoxicação está diretamente ligado à intensificação do uso de pesticidas no Brasil. O país também alcançou números recordes nesse setor, com 914 novos registros de agrotóxicos concedidos em 2025, um crescimento de 38% em relação ao ano anterior. Em 2024, as vendas de agrotóxicos totalizaram 826 mil toneladas, apresentando uma alta de 9,3% diante de 2023, segundo dados do IBAMA. “Com a maior oferta de agrotóxicos, a tendência é que o preço diminua, o que pode resultar em um aumento no consumo,” explica Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Impactos da Legislação e Colonialismo Químico
Mudanças na legislação também têm contribuído para o agravamento desta situação alarmante. A Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, é frequentemente criticada como um retrocesso nas normas de controle. “As intoxicações por agrotóxicos deveriam ser tratadas como um grave problema de saúde pública, e não como casos isolados,” destaca Fernanda Savicki, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A geógrafa Larissa Bombardi, conhecida por seu trabalho sobre o tema, alerta para uma dinâmica global que impacta diretamente o Brasil. De acordo com Bombardi, produtos proibidos ou rigorosamente restritos na União Europeia continuam a ser amplamente utilizados no Brasil, muitas vezes por empresas europeias. Essa situação é descrita como “colonialismo químico”. “A população rural brasileira está exposta cronicamente a substâncias cancerígenas ou que causam desregulação hormonal,” enfatiza a geógrafa em entrevista ao Brasil de Fato. “Estudos mostram que as regiões com maior uso de agrotóxicos são também aquelas onde se registra a maior incidência de câncer,” completa.
