A intersecção entre política e carnaval
O Carnaval é um espaço onde a cultura popular e a política frequentemente se cruzam. Neste ano, a Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial, abre o desfile no próximo domingo (15) com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Isso reacende um debate sobre as homenagens feitas a diferentes presidentes ao longo da história, destacando como a avenida tem sido um palco não só de celebração, mas também de crítica social.
Embora não seja comum que muitos presidentes sejam homenageados, figuras como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Luiz Inácio Lula da Silva têm seu legado exaltado nas passarelas do samba. Curiosamente, Lula, que atualmente cumpre seu terceiro mandato, já foi homenageado em 2003 pela Beija-Flor de Nilópolis, enfatizando a longevidade de sua presença na política brasileira.
A escolha da nova escola de samba para abrir o desfile reposiciona a política novamente em evidência, lembrando os emblemáticos desfiles da Paraíso do Tuiuti em 2018, que criticou o governo Temer, e da Acadêmicos de Vigário Geral em 2020, que satirizou o bolsonarismo. Essa tradição de misturar política e carnaval se intensifica especialmente durante anos eleitorais.
Para entender melhor essa relação, revisitamos cinco desfiles marcantes em que presidentes foram homenageados ou criticados, revelando o papel significativo da cultura popular na formação da memória coletiva do Brasil.
1. Getúlio Vargas
No Carnaval de 1956, a Estação Primeira de Mangueira homenageou Getúlio Vargas com o enredo “Exaltação a Getúlio Vargas – Emancipação Nacional do Brasil”. Essa abordagem dialogava diretamente com as memórias do trabalhismo e do nacional-desenvolvimentismo, refletindo um contexto em que Vargas ainda era uma figura central na política nacional.
Mais tarde, em 2000, a Portela apresentou “Trabalhadores do Brasil – A Época de Getúlio Vargas” durante a celebração dos 500 anos do Brasil. Esse desfile reforçou a importância da “Era Vargas” e sua contribuição histórica para o país, mostrando o impacto duradouro da sua liderança.
2. Juscelino Kubitschek
Em 1981, a Estação Primeira de Mangueira voltou à avenida com o enredo “De Nonô a JK”, que celebrava a figura de Juscelino Kubitschek como um símbolo de conciliação e modernização. Esta apresentação consolidou a mitologia em torno de JK, destacando sua visão otimista para o futuro do Brasil.
No Carnaval de 2002, o Leão de Nova Iguaçu apresentou “Do esplendor diamantino aos sonhos dourados de Juscelino”, reafirmando a imagem de JK como um líder focado em progresso e desenvolvimento, um legado que ainda ressoa entre os brasileiros.
3. Luiz Inácio Lula da Silva
Lula também teve sua trajetória homenageada em 2003, quando a Beija-Flor de Nilópolis trouxe o enredo “O povo conta a sua história: ‘saco vazio não para em pé’”. Este desfile destacou questões sociais como fome e desigualdade, refletindo a realidade do início do governo Lula e sua conexão com as lutas populares.
4. Michel Temer
Em 2018, o desfile da Paraíso do Tuiuti fez história com “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, trazendo uma crítica contundente ao governo de Michel Temer. O desfile foi particularmente lembrado por sua sátira e o uso de símbolos que questionavam as promessas não cumpridas da gestão atual, ecoando os sentimentos de descontentamento entre a população.
5. Jair Bolsonaro
Finalmente, em 2020, a Acadêmicos de Vigário Geral terminou seu desfile da Série A com um alegórico tripé, amplamente interpretado como uma crítica ao bolsonarismo. Usando uma linguagem de deboche e ironia, a escola fez ecoar os sentimentos de muitos cidadãos que se opõem ao governo na época, mostrando como o samba pode ser uma forma poderosa de protesto.
Esses desfiles exemplificam a capacidade das escolas de samba de se tornarem plataformas para a expressão de diferentes narrativas políticas, unindo o folclore e a crítica social de maneira única. A tradição de homenagear ou criticar presidentes no Carnaval continua a ser uma parte vibrante e essencial da cultura brasileira, refletindo a complexidade e as nuances da nossa história política.
