Explorando o fenômeno das turnês transformadas em verdadeiras jornadas
Para muitos, a experiência de ver um artista ao vivo pode ser tão simples quanto pegar um metrô até o local do show e voltar para casa ao final da noite. No entanto, para outros, a aventura começa muito antes, com a compra de passagens e a preparação para cruzar fronteiras.
Uma pesquisa realizada pelo Terra com os fãs do rapper porto-riquenho Bad Bunny revelou a grandiosidade desse fenômeno: 58% dos seus admiradores viajam de avião para assistir aos seus shows, enquanto 35% aproveitam a oportunidade para acumular milhas. A maioria do público é composta por mulheres, que representam 54% dos espectadores.
Bad Bunny fez sua primeira apresentação no Brasil em fevereiro deste ano durante a turnê intitulada Debí Tirar Más Fotos (DtMF), com dois shows realizados em São Paulo.
Fora do Allianz Parque, as estatísticas se transformam em histórias emocionantes. Letícia Lopes, de 23 anos, atravessou o país para ver o ídolo pela primeira vez, acompanhada de sua namorada, Suziene Soares. “Sou muito fã. Muito, muito, muito”, revelou Letícia, que acompanha o artista desde 2016, quando ele ainda lançava suas músicas no SoundCloud.
A relação de Letícia com a música de Bad Bunny é profunda e vem de longe. “Eu moro em Alagoas, mas cresci no Acre, na fronteira com a Bolívia. Lá, a cultura reggaeton é muito forte, então sempre ouvi Bad Bunny e outros artistas desse gênero desde cedo”.
Ela se identifica com as letras do cantor e destaca o impacto do seu estilo e posicionamento político, especialmente no álbum mais recente. “É incrível, porque falamos tanto sobre brasilidade, mas, ao mesmo tempo, a América Latina é como uma casa de vó, cheia de histórias e vivências”.
Quando os ingressos para o show foram disponibilizados, Letícia se preparou para o que chamou de uma verdadeira missão. “Assim que anunciaram a venda, eu fiquei na expectativa. Quando abriam as vendas para o público geral, fui rápido. Tentei em todos os dispositivos: computador, tablet e celular!”
Apesar de seu amor pelo artista, Letícia não conseguiu ir ao show anterior, que ocorreu no Paraguai, por conta da distância. “Ele se apresentou por lá durante a turnê Un Verano Sin Ti, mas não consegui ir, uma vez que não tinha como viajar até o Paraguai”.
Se a jornada de Letícia foi nacional, a de Leslie Garcia foi internacional. Natural de Miami, a fã desembarcou no Brasil acompanhada de três amigas para ver o show. “Decidimos vir para o Brasil porque a apresentação aconteceu durante o carnaval. Achamos que seria uma ótima oportunidade de aproveitar o evento e conhecer o país ao mesmo tempo”, contou.
A viagem se transformou em um roteiro turístico, com a primeira parada no Rio de Janeiro. “É a minha primeira vez no Brasil e estou adorando. O povo é muito acolhedor e a comida é incrível, cheia de variedades que eu não esperava”.
Contudo, o principal objetivo da viagem estava guardado no ingresso: o show em São Paulo. “Nunca vi Bad Bunny ao vivo. Será a primeira vez para mim em muitas coisas. Como ele não se apresentou nos Estados Unidos nesta turnê, decidimos sair do país para vê-lo”.
A ausência de datas nos EUA para a turnê foi vista por muitos como um gesto político, embora a equipe do artista tenha explicado que se tratava de uma medida de precaução devido a riscos de detenções envolvendo fãs latinos, que muitas vezes são alvos do ICE. Essa situação acabou redefinindo o roteiro das turnês e forçou muitos fãs a viajarem.
Leslie se considera uma fã “no meio do caminho”. “Eu não sou a mais antiga entre os fãs, mas amo Bad Bunny. O acompanho desde os primeiros álbuns, antes mesmo de hits como Yo Perreo Sola”.
Essas experiências refletem uma nova forma de ver shows ao vivo. Agora, não se trata apenas de música, mas também de identidade, pertencimento e, se necessário, de jornadas que valem a pena. O que antes era apenas uma noite de festa, agora se transforma em uma verdadeira odisseia para fãs que cruzam fronteiras em busca de conexão e emoção.
