Integração entre ciência e gestão pública
Uma importante iniciativa promovida pelo Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC), em colaboração com a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil (IRI Brasil), levou prefeitos e gestores do Acre a uma visita técnica ao Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) e ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) nos dias 10 e 11 de março em São José dos Campos, São Paulo. O evento, que contou com a participação da Associação dos Municípios do Acre (AMAC), teve como objetivo discutir estratégias para enfrentar os eventos climáticos extremos que afetam a região amazônica, especialmente o estado do Acre.
A visita faz parte das ações decorrentes de um termo de cooperação assinado em 2024 entre o TCE-AC e o IRI Brasil, vinculado ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O propósito é conectar os gestores públicos com os avanços científicos, tecnologias de monitoramento ambiental e políticas públicas voltadas para a prevenção e mitigação de desastres naturais. O evento reuniu cerca de 18 renomados cientistas e pesquisadores em áreas como meteorologia, monitoramento ambiental e gestão de riscos climáticos, proporcionando um dos mais significativos encontros de capacitação para a gestão municipal no contexto das mudanças climáticas.
Capacitação e troca de experiências
Durante a programação, prefeitos e gestores puderam participar de palestras, oficinas práticas e visitas guiadas aos centros operacionais responsáveis pelo monitoramento climático e ambiental em todo o Brasil. No CEMADEN, os participantes aprenderam sobre o sistema nacional de monitoramento de desastres, que inclui redes de observação meteorológica e hidrológica, sistemas de alerta para eventos climáticos extremos e metodologias de análise de risco. A agenda também possibilitou uma visita à sala de situação do centro, onde é feito o acompanhamento em tempo real dos fenômenos meteorológicos e hidrológicos que podem representar riscos à população.
No dia seguinte, no INPE, os gestores foram apresentados a iniciativas de monitoramento ambiental por satélite, como o Programa Queimadas e a plataforma Adapta Brasil, que se dedica ao planejamento de políticas públicas voltadas à adaptação às mudanças climáticas. Os participantes também visitaram o Centro de Controle e Rastreio de Satélites, que monitora operações espaciais que geram dados essenciais para os estudos climáticos e ambientais no país.
Perspectivas para a gestão municipal
A conselheira Dulce Benício, presidente do TCE-AC, ressaltou a importância da iniciativa para aproximar os municípios acreanos de instituições científicas de excelência. Ela enfatizou que o evento, realizado em parceria com a AMAC, possibilitou uma ampla participação dos gestores.
“Estamos aqui reunindo cientistas do CEMADEN e do INPE, que são referências no país. Essa troca de conhecimento fortalece a capacidade dos gestores municipais de reagir a eventos climáticos adversos e oferece ferramentas concretas para o planejamento e a prevenção de desastres”, afirmou a conselheira. Ela também destacou que, além das discussões técnicas, foram apresentados produtos voltados à educação ambiental e planejamento preventivo que podem ser aplicados diretamente nas gestões municipais.
Opiniões dos prefeitos sobre a iniciativa
O prefeito de Rio Branco e presidente da AMAC, Tião Bocalom, caracterizou a agenda como extremamente proveitosa para os gestores. “Foi uma oportunidade valiosa em São José dos Campos. Aprendemos muito sobre mudanças climáticas. Muitos municípios enfrentam enchentes em algumas épocas do ano e secas severas em outras, sendo crucial buscar conhecimento técnico que nos ajude a agir com mais eficácia em momentos críticos”, destacou.
O prefeito de Assis Brasil, Jerry Correia, enfatizou a relevância do contato direto com cientistas e especialistas, que aumenta a capacidade de planejamento dos municípios. “Esse diálogo direto com especialistas fortalece a tomada de decisões e nos proporciona acesso a ferramentas que podem ser facilmente utilizadas nas gestões locais”, comentou.
Por sua vez, Olavo Francelino de Rezende, prefeito de Acrelândia, também ressaltou a importância da agenda. “Essas visitas são fundamentais para que possamos conhecer e aprender sobre experiências que, se colocadas em prática, vão beneficiar os municípios”, disse.
Desafios climáticos no Acre
A visita ocorreu em um cenário de crescente preocupação com os impactos das mudanças climáticas na Amazônia. Dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil mostram que o Acre registrou 167 ocorrências de desastres naturais entre 2015 e 2024, com 56 episódios de seca, 53 inundações e 44 incêndios florestais. Esses eventos têm causado danos à infraestrutura urbana, perdas na agricultura e agravamento de problemas de saúde relacionados à poluição e contaminação ambiental.
Fortalecimento da governança climática
A atividade promovida pelo TCE-AC visa integrar a gestão pública com bases científicas, contribuindo para que as políticas municipais sejam cada vez mais fundamentadas em dados e estratégias preventivas. Além de auxiliar na elaboração de planos de contingência, a troca de experiências pode ampliar o acesso a recursos destinados à prevenção de desastres e à construção de cidades mais resilientes. O objetivo é garantir que o conhecimento adquirido fortaleça uma agenda de cooperação permanente entre ciência e gestão pública na luta contra as mudanças climáticas.
