Impacto das Estruturas Institucionais nas Respostas a Crises de Saúde
Estados brasileiros que já haviam investido em saúde pública ao longo dos anos mostraram uma resiliência notável durante a pandemia de Covid-19. Essa realidade se deve a um legado de experiências prévias e a uma estrutura institucional que estava em funcionamento, permitindo uma atuação coordenada e respaldada pela ciência. Através de um estudo realizado por mim e pelo professor Éric Montpetit, da Universidade de Montreal, conseguimos analisar como a capacidade estatal acumulada influenciou a resposta dos governos estaduais.
A pesquisa revela que a preparação para crises sanitárias não se constrói de forma improvisada. As diferenças nas respostas às epidemias, como a dengue e a Covid-19, estão ligadas a recursos disponíveis, estruturas organizacionais e a capacidade de priorizar a saúde pública em detrimento de outras áreas. Estados que historicamente investiram em saúde têm se mostrado mais eficazes ao adotar uma abordagem orientada por evidências e pela atuação de especialistas em saúde pública.
A Formação de Bolhas Políticas e Seu Impacto na Saúde Pública
Uma das inovações do nosso estudo é a introdução do conceito de “bolhas políticas” no campo da saúde. Essas bolhas se formam quando ações governamentais investem intensamente em determinadas áreas, especialmente em situações de emergência. Diferente das bolhas financeiras que se dissipam, essas bolhas políticas deixam legados duradouros que influenciam a maneira como os governos lidam com crises futuras.
Os estados que conseguiram articular recursos de forma consistente em saúde pública não apenas ampliaram suas capacidades de resposta, mas também estabeleceram uma centralidade em informações produzidas por especialistas. Esse ciclo de investimento e resposta eficaz reforça a infraestrutura de saúde e estabelece uma base sólida para futuras crises sanitárias.
Diversidade de Respostas e Impactos nas Estratégias Governamentais
No entanto, estados que não tinham essa base sólida enfrentaram desafios maiores. A ausência de um histórico de investimento em saúde pública resultou em respostas mais irregulares e menos fundamentadas. Governos com capacidade institucional limitada muitas vezes se voltaram para informações do setor produtivo e priorizaram estratégias que focavam mais em aspectos econômicos do que na saúde da população.
A composição dos comitês formados para enfrentar a Covid-19 também varia conforme a capacidade epidemiológica dos estados. Em locais como São Paulo e Ceará, os comitês foram predominados por especialistas em saúde pública, enquanto estados com menor capacidade, como Acre e Goiás, incluíram representantes de setores econômicos, o que refletiu uma abordagem menos centrada na saúde.
Legados e Desafios Futuros na Saúde Pública
As lições aprendidas durante a crise da Covid-19 são cruciais para o futuro da saúde pública no Brasil. O estudo demonstra que a desigualdade na distribuição de recursos e na formação de bolhas políticas impacta significativamente a capacidade de resposta dos estados durante emergências sanitárias. Mais importante do que encontrar soluções imediatas, é necessário compreender como as diferentes trajetórias institucionais moldam as opções disponíveis para os governos.
Essa análise revela que, enquanto algumas regiões conseguiram se fortalecer em tempos de crise, outras permanecem vulneráveis a improvisações em momentos críticos. As experiências passadas com crises sanitárias, como a dengue e a Zika, devem ser utilizadas para orientar ações futuras, garantindo que os legados de investimento em saúde não sejam esquecidos e que a resposta às próximas emergências seja mais equitativa e eficiente.
