Voices de Luta e Esperança pela Amazônia
No dia 4 de setembro, a Câmara dos Deputados sediou uma cerimônia especial em homenagem ao Dia da Amazônia, que é comemorado no dia seguinte. O evento foi promovido por um grupo de nove parlamentares de diversas siglas e estados, reunindo importantes figuras, como lideranças indígenas, extrativistas e ambientalistas, além de representantes do governo federal.
Entre os destaques da cerimônia estiveram as intervenções de três mulheres do Acre: a deputada Socorro Neri (PP-AC), a ativista Ângela Mendes, filha do icônico Chico Mendes, e a indígena Alana Manchineri, coordenadora da Coiab. Também fez parte do evento a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, reconhecida nacionalmente por sua atuação em defesa das causas indígenas.
Os discursos proferidos no evento mesclaram denúncias, celebrações e pedidos por ações efetivas. A deputada Neri, que foi uma das responsáveis pela organização da solenidade, iniciou a reunião com um forte apelo à responsabilidade dos parlamentares. “Cuidar da Amazônia requer coragem política, responsabilidade e, mais do que tudo, um senso de urgência da parte de todos nós”, destacou Neri, que criticou os retrocessos nas leis ambientais e defendeu a manutenção dos vetos presidenciais à polêmica “lei da devastação”, recentemente aprovada pelo Congresso. “É este tipo de resposta que a Casa precisa dar neste momento crítico”, declarou.
Além disso, Neri ressaltou sua participação no Parlamento Amazônico, uma organização que congrega representantes dos nove países que compartilham o bioma amazônico. “É doloroso perceber que, em todos esses países, a Amazônia é a região mais afetada, com os menores índices de Desenvolvimento Humano e poucas oportunidades. Precisamos mudar essa realidade”, afirmou. Para a deputada, o futuro da Amazônia deve ser alicerçado em ciência, tecnologia e políticas públicas robustas que consigam equilibrar a preservação ambiental com a dignidade humana.
A ativista Ângela Mendes, por sua vez, enfatizou a importância dos povos da floresta na luta pela conservação ambiental. “A Amazônia é viva e resiliente, mas enfrenta ameaças constantes. Temos que cuidar da floresta e de todos que a protegem”, disse Mendes. Ela também lembrou que, no Acre, o Dia da Amazônia coincide com o início do Festival Jovens do Futuro, que homenageia a carta escrita por Chico Mendes às novas gerações. “Quando vejo esta diversidade presente aqui, recordo da Aliança dos Povos da Floresta, que agora é mais ampla, acolhendo pescadores, assentados e quilombolas. Essa união é a chave para a sobrevivência da Amazônia”, afirmou.
Alana Manchineri abordou de maneira incisiva a questão da justiça climática e a soberania dos territórios indígenas. Em seu pronunciamento, ela leu um manifesto que denuncia a contribuição da indústria de combustíveis fósseis para as emissões de carbono, exigindo ainda o reconhecimento internacional do papel fundamental que os povos tradicionais desempenham na conservação ambiental. “Enquanto muitos países se esforçam para reduzir suas emissões, nossos territórios já atuam como grandes sumidouros de carbono, absorvendo mais CO₂ do que geram”, declarou Alana, que também criticou o lobby ambiental e os ataques às legislações que protegem o meio ambiente. “A Amazônia não resistirá se o planeta continuar em chamas. A nossa luta não é retórica; é uma afirmação de que estamos segurando o céu para que ele não desabe”, completou.
A ministra Sônia Guajajara também fez uso da palavra, conclamando a consciência coletiva diante da crise climática. Ela destacou que o Dia da Amazônia coincide com o Dia Internacional da Mulher Indígena, pedindo aplausos para todas as mulheres que se empenham na proteção dos territórios. “Falo aqui não apenas como ministra, mas como mulher amazônida. Enfrentamos uma violência alarmante contra defensores do meio ambiente, e muitas dessas pessoas perdem suas vidas simplesmente por proteger a floresta”, enfatizou Guajajara. A ministra também destacou a atuação do governo federal na demarcação de terras indígenas e na proteção das áreas em risco. “Olhar para a Amazônia é pensar no presente e no futuro”, acrescentou.
Além das quatro lideranças, o evento contou com a participação de representantes do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). A atividade fez parte da programação da Semana da Sociobiodiversidade, realizada em Brasília entre os dias 1 e 5 de setembro, reforçando a colaboração entre movimentos sociais e instituições públicas na defesa da Amazônia.
Ao final do encontro, os participantes reiteraram a importância de fortalecer as alianças entre os povos indígenas, extrativistas, quilombolas e ribeirinhos. “A resposta somos todos nós: as comunidades que enfrentam a crise climática a partir de suas próprias realidades”, concluiu Alana Manchineri. O compromisso coletivo foi reafirmado como um chamado à ação para proteger e garantir justiça social e ambiental para todas as populações que habitam o bioma amazônico.
