Das Cinzas do Antigo Quartel à Penitenciária Modelo
A imponente construção que hoje abriga a administração municipal de Rio Branco, localizada na Rua Rui Barbosa, nº 285, é muito mais que um simples edifício governamental. Na verdade, trata-se de um verdadeiro livro de história vivo, cujas paredes sussurram as memórias de mais de um século de transformações. Inicialmente um modesto alojamento militar, o local passou por diversas etapas, incluindo um luxuoso hotel e até uma moderna penitenciária, refletindo a evolução política e social da capital acreana.
A história desse endereço emblemático começa em 1910, quando o espaço abrigava uma singela construção de madeira destinada a guardas militares da Companhia Regional do Alto Acre. Na frente do quartel, havia um campo de exercícios que atualmente conhecemos como a vibrante Praça da Revolução.
Com a posse do primeiro governador do Território Federal do Acre, Epaminondas Tito Jácome, em 1921, um quartel maior foi construído para a Força Policial. No entanto, o prédio, feito de madeira e com dois andares, não se destacou pela sua estética, sendo rapidamente apelidado de “o velho pardieiro sem estética”.
Uma Revolução Arquitetônica: A Penitenciária Modelo
A primeira grande transformação arquitetônica ocorreu em 1927, sob a gestão do governador Hugo Carneiro, que considerou o quartel inadequado. O local passou por uma reforma significativa: o prédio foi demolido para dar lugar a uma Penitenciária Modelo. O projeto ambicioso foi assinado pelo arquiteto alemão Albert Oswald Massler, o mesmo responsável pelo icônico Palácio Rio Branco.
Financiada pela União durante o governo de Getúlio Vargas, a penitenciária foi inaugurada em 29 de agosto de 1935, recebendo o nome de “Penitenciária Ministro Vicente Ráo”, que posteriormente se tornou “Penitenciária Dr. Evaristo de Morais” em 1940. Com capacidade para 120 presos, o local era considerado um dos estabelecimentos prisionais mais modernos e confortáveis do país na época.
De Presídio a Hotel de Luxo: A Surpreendente Metamorfose
Se a transformação de quartel em presídio já era impressionante, o destino que o interventor José Guiomard dos Santos reservou para o edifício em 1950 é, sem dúvida, o capítulo mais surpreendente dessa narrativa.
Com a transferência gradual dos poucos presos para a recém-construída Colônia Penal Agrícola, a penitenciária foi esvaziada e passou por uma reforma expressa de apenas noventa dias, entre janeiro e abril de 1950.
O Decreto nº 160, emitido em 30 de junho de 1950, selou essa inusitada reinvenção: a antiga casa de custódia tornou-se o “Hotel Chuí”, uma homenagem ao gaúcho José Plácido de Castro. Sob nova administração, rapidamente se destacou como o mais elegante ponto de hospitalidade de luxo da capital acreana, recebendo a elite e os visitantes mais ilustres do Acre.
A Sede Definitiva do Poder Municipal
Entretanto, a vocação hoteleira do local não seria duradoura. Depois de um período de arrendamento, o antigo “Hotel Chuí” foi devolvido ao governo estadual e, mais uma vez, passou por uma transformação.
A Intendência Municipal de Rio Branco, que iniciou suas atividades em 1913, havia passado por diversos endereços até que, em 1984, a história da Prefeitura se uniu definitivamente à do emblemático edifício. O governador Nabor Teles da Rocha Junior cedeu o imóvel ao município, e o então prefeito, engenheiro Flaviano Flávio Baptista de Melo, autorizou uma rápida reforma, permitindo que a Prefeitura Municipal de Rio Branco se mudasse para a Rua Rui Barbosa, nº 285, em 8 de junho de 1984.
A posse do patrimônio foi formalizada posteriormente, consolidando o prédio como a sede oficial do poder municipal. O historiador José Wilson Aguiar, coordenador de Patrimônio Histórico e Cultural da Fundação Municipal de Cultura Garibaldi Brasil, resume bem a história: “Essa metamorfose de presídio para hotel de luxo e, finalmente, em sede do poder municipal, faz com que este prédio carregue em sua estrutura a memória de diferentes fases do desenvolvimento e da organização social do Acre. É um local onde a história, a arquitetura e o poder se encontram de forma única.”
Na próxima vez que você passar pela Rua Rui Barbosa, lembre-se: o coração da administração municipal é também um guardião da história, um espaço onde a segurança militar, a custódia penal, a hospitalidade de luxo e o poder político se entrelaçam em uma das narrativas mais fascinantes da cidade de Rio Branco.
