Inovação em Saúde Mental no Judiciário
O programa Médico 24 Horas, apresentado pelo médico Dr. Fabrício Lemos, trouxe à tona uma discussão essencial sobre saúde mental no ambiente do Judiciário do Acre. O episódio, exibido na última segunda-feira (12), contou com a participação do juiz auxiliar da presidência do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), Dr. Giordane Dourado, que abordou os desafios enfrentados por profissionais da Justiça em um contexto de alta pressão emocional e social.
De acordo com Dourado, a rotina no Judiciário é marcada por conflitos humanos intensos, o que pode resultar em sérios problemas de saúde mental. “As pessoas que chegam ao fórum trazem consigo angústias, medos e preocupações. A pressão sobre os servidores é enorme, e isso não pode ser ignorado”, ressaltou o juiz, que é um dos idealizadores do Programa Permanente de Assistência à Saúde Mental do TJAC.
Ele ainda enfatizou que, além das doenças mais reconhecidas, como a ansiedade e a depressão, há um crescente diagnóstico de outros transtornos que, historicamente, foram negligenciados pelas instituições. “A exigência por resultados muitas vezes leva os profissionais a adoecerem, e isso é alarmante”, acrescentou.
Desmistificando a Saúde Mental
Fabrício Lemos, por sua vez, destacou a importância de se repensar a saúde mental no contexto institucional. “É fundamental que haja uma política pública voltada para esse aspecto. Por muito tempo, quem apresentava problemas nesse sentido era visto como ‘o problema’ e não como alguém que precisa de acolhimento”, comentou o apresentador.
Um dos principais obstáculos enfrentados, conforme Dourado, é o preconceito. “Durante anos, as pessoas com questões de saúde mental eram rotuladas de forma negativa. Frases como ‘fulano não presta’ eram comuns. Isso precisa mudar. Todos merecem ser tratados com dignidade”, declarou.
Origem do Programa de Assistência
A ideia do programa de assistência à saúde mental surgiu após um desafio interno no final de 2024, onde colaboradores foram incentivados a pensar em projetos transformadores. “Percebi que havia muitos servidores afastados devido a problemas de saúde mental. Essa constatação foi o impulso para a criação do programa”, explicou Giordane.
Ao apresentar a proposta para a presidência, ele encontrou apoio imediato. “O desembargador Laudivon Nogueira já havia considerado a necessidade de um programa dessa natureza, e a convergência foi impressionante”, relatou.
Escuta Ativa e Audiência Pública
Um dos pilares do projeto é a escuta ativa. “Para entender realmente o que as pessoas estão enfrentando, é preciso ouvi-las. Iniciamos com uma audiência pública para captar as necessidades e sentimentos de servidores e magistrados”, detalhou Giordane.
Os depoimentos revelaram a gravidade da situação. Um servidor, por exemplo, destacou a importância da forma como a instituição se comunica. “Ele mencionou: ‘Eu não estava de atestado, eu estava doente’. Essa mudança de perspectiva é crucial”, frisou Dourado.
Protocolos e Abordagem Multidisciplinar
O programa foi estruturado como uma política permanente, a fim de garantir sua continuidade. “Não poderíamos criar uma iniciativa que dependesse de uma gestão específica. Isso precisaria ser institucionalizado”, afirmou o juiz.
O projeto conta com três etapas fundamentais: identificar, abordar e tratar. “Essas etapas podem parecer simples, mas muitas instituições não estão preparadas para aplicar essa metodologia de forma eficaz”, explicou.
Ambiente de Trabalho e Inovação
Além do suporte psicológico, a reestruturação dos ambientes de trabalho também foi destacada. “Ambientes frios e impessoais podem intensificar o sofrimento. Estamos trabalhando para criar espaços mais acolhedores e que promovam o bem-estar mental”, observou Giordane, mencionando a relação entre o ambiente físico e a saúde mental dos servidores.
Adicionalmente, o uso de tecnologia, como ferramentas de inteligência artificial, passou a ser parte do programa. “A tecnologia pode oferecer suporte, mas também traz desafios. Não é possível dissociar o uso da tecnologia do cuidado com a saúde mental”, completou.
Reconhecimento e Futuros Projetos
Na ExpoJud, um evento de inovação do Judiciário brasileiro, o TJ-AC recebeu prêmios de destaque, incluindo o de Liderança Exponencial do Ano. “Foi um reconhecimento de que a saúde mental é um tema relevante e que merece atenção”, comemorou Dourado.
O magistrado anunciou também a intenção de expandir o programa para outras instituições do Acre e do Brasil. “Queremos compartilhar essa experiência. O programa é um modelo que pode ser replicado”, finalizou.
