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    Início»Política»Historiador da Ufac: “EUA buscam riquezas, não aliados”
    Historiador da Ufac: "EUA buscam riquezas, não aliados"
    Política 03/01/2026

    Historiador da Ufac: “EUA buscam riquezas, não aliados”

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    Análise crítica sobre o impacto da invasão dos EUA na Venezuela

    A comemoração de políticos de direita no Acre, em resposta à invasão dos Estados Unidos na Venezuela e à prisão de Nicolás Maduro e sua esposa, gerou reações contundentes no meio acadêmico. Em entrevista ao ac24horas, o historiador e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Wlisses James de Farias Silva, apontou o evento como um reflexo de um mundo em descompasso com as normas internacionais. Ele fez previsões alarmantes sobre como o conflito afetará o fluxo migratório em direção ao Brasil, especialmente pelas fronteiras amazônicas do Acre, tradicionalmente conhecidas por seu deslocamento humano.

    Segundo Wlisses James, a celebração do ataque militar demonstra não apenas um alinhamento ideológico, mas também um erro histórico da elite política brasileira, que teima em ver os Estados Unidos como um aliado genuíno. “É um problema histórico, cultural e educacional da elite brasileira, especialmente dos políticos de direita. Existe essa ilusão de que os norte-americanos nos veem como iguais. Não é verdade. Eles nos percebem como latinos, sul-americanos e subalternos”, declarou o historiador.

    O professor não hesitou em destacar as consequências diretas dessa crise. Embora reconheça que o momento ainda é prematuro para prever números exatos, a tendência é que a imigração venezuelana aumente. “É evidente que haverá impacto em nossas fronteiras, como já ocorre há uma década em decorrência dos embargos e tensões entre a Venezuela e os EUA. Com uma invasão militar, esse movimento deve intensificar ainda mais”, avaliou.

    Wlisses James explicou que a lógica é simples: conflitos armados geram medo, e o medo leva civis a abandonarem seus lares. “Atualmente, pessoas estão sendo mortas na Venezuela. Bombas atingem tanto civis quanto militares. Não se deve pensar que apenas soldados morrem. Cada explosão destrói casas, vidas e famílias. Quando a garantia de sobrevivência é ameaçada, as pessoas fogem”, enfatizou.

    Ele salientou que, devido à sua fronteira direta com a Venezuela, o Brasil se tornará um destino importante para esse deslocamento forçado, que inicialmente se dará por Roraima, mas outras rotas menos evidentes também devem ser consideradas. “É natural que os venezuelanos busquem sair por onde for possível. Se a situação fosse inversa, nós, aqui no Acre, buscaríamos abrigo na Bolívia ou no Peru. As fronteiras do Acre com o Peru e a Bolívia já são rotas migratórias bem conhecidas e podem novamente se tornar de grande importância”, alertou.

    Além da crise humanitária que se avizinha, Wlisses James criticou a empolgação de setores da extrema direita brasileira com a atuação militar dos Estados Unidos. Para ele, esse entusiasmo é alimentado por uma visão distorcida da geopolítica mundial. “Os Estados Unidos não se importam com o povo venezuelano, assim como não se importam com o brasileiro. O que eles buscam são interesses materiais: petróleo, recursos naturais, riqueza”, afirmou.

    O professor também fez uma comparação histórica, lembrando que essa aliança automática não é uma novidade, remontando ao apoio que parte da elite brasileira deu ao golpe militar de 1964. “Desde então, essa expectativa de que, ao apoiar os EUA, seríamos respeitados como parceiros, nunca se concretizou”, observou.

    Wlisses James também apontou um aspecto mais radical no discurso da extrema direita contemporânea, especialmente entre os apoiadores do ex-presidente Bolsonaro. “Há um anseio de que uma ação semelhante possa ocorrer no Brasil: destituir o atual presidente e reinstaurar Bolsonaro. Isso já foi mencionado publicamente, inclusive por Flávio Bolsonaro, quando ele falou sobre bombardear a Baía de Guanabara”, recordou.

    Para o historiador, essa mentalidade revela uma contradição profunda. “Essas pessoas acreditam que são considerados irmãos pelos norte-americanos, mas, na verdade, são apenas parte de um território de interesse econômico. Celebrar a destruição de um país vizinho é também celebrar a possibilidade de mais mortes, mais deslocamentos forçados e maior pressão sobre regiões vulneráveis como a Amazônia e o Acre”, concluiu.

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